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Elliot

Meu pequeno cão tem nome, olho e latido de roqueiro. Atende por Ozzy,tem uma máscara preta tipo as do pessoal do Kiss e grita feito o Iggy Pop. Mas foi de outra celebridade que lembrei quando comecei a tossir. Com menos drama e fantasia do que no filme que fez de Steven Spielberg quem ele é hoje, o Ozzy é meu E.T. Sempre morei em apartamento, nunca gostei de pescar, caçar, subir em árvore, andar a cavalo ou de qualquer outra atividade campestre. Nunca tive qualquer tipo de bicho de estimação, e achava que tratar cachorro como gente era o fim da picada. Bom, tudo isso até que meu pequeno E.T. aparecesse. Confesso envergonhado que vejo ele fazer coisas dignas de uma pessoa com bom nível de inteligência, converso com ele como conversaria com meu melhor amigo e me emociono com qualquer latido diferente. Outro dia me peguei tentando ensiná-lo a cantar como Mademoseille Nobs, a cachorrinha blueseira do vídeo do Pink Floyd. Se ela pode, por que meu Ozzão não poderia? Ainda bebezão, com a cheg...

Carta aos confusos

Eu estou a aproximadamente uns 10.000 metros de altura, voltando de mais uma viagem de tabalho. Estou cansado e sob o leve efeito de meio copo de plástico de vinho tinto francês vagabundo, servido com o micro jantar do avião. Por sorte estou sozinho em dois bancos, o que me dá espaço e privacidade para escrever. Já estava me preparando para encostar e tentar dormir quando resolvi embalar o sono com música. Têm 3 coisas que não podem acabar no meio de um vôo longo, a bateria do i-pod, a bateria do notebook e o livro que você está lendo. Bom, há uma quarta é claro, a gasolina do avião, mas nessa não vou me deter agora. Procurando o som ideal para dormir, quase já parando no meu mais novo melhor amigo de viagens, Bob Dylan, percebi que as 4 músicas novas do Confusion estavam no aparelhinho. Já as havia escutado uma vez em casa e gostado bastante, mas agora foi diferente. Não é o vinho, nem o sono, nem o fato de serem meus grandes amigos e muito menos de eu ter participado de alguns anos...

Grandes Questionamentos

Grandes questionamentos acerca da vida moderna de hoje-em-dia neste mundo globalizado onde a velocidade das mudanças alcança níveis nunca antes imagináveis, da exceção se faz a regra, se fuma menos e se corre mais Será que o carro elétrico será bivolt? Se não for, como é que eu vou fazer para ir a Santa Catarina? Já é difícil ter que carregar o transformador do secador de cabelos de minha mulher, imagina o do carro. Me resta torcer pelo bom senso dos engenheiros, ou seja, tô lascado! Quando um fotógrafo profissional entra em ação em festas de casamento e formaturas, geralmente tira mais de uma foto como garantia. Garantia de que? Se tira a foto do povo na mesma posição, com a mesma luz e o mesmo fundo, qual a vantagem? Na era da fotografia em filme até dava para entender, mas com a tecnologia digital fica difícil. Se o cartão de memória pifar, dificilmente (para não dizer impossivelmente) alguma foto se salva. Se manteiga fazia mal e margarina era a solução, como é que hoje é o c...

Memórias da barriga

Não sou compulsivo com comida, mas desde sempre uma das coisas que mas me deixa irritado é estar com fome. Se tenho uma reunião de trabalho que começa ao meio-dia, tenho que comer alguma coisa antes para conseguir me concentrar no assunto. Se vou jantar fora e a comida começa a demorar, começo a olhar para os lados e perder a paciência. Acho que é mais uma herança de família. Quando minha avó paterna era viva e íamos almoçar na casa dela aos domingos, invariavelmente as crianças estavam com fome muito antes do almoço ficar pronto. Minha avó, que não conseguia ver os netos descontentes, improvisava um pão francês com margarina e açúcar que, se no conceito parece terrível, na prática salvava nossas vidas, e principalmente a dos adultos, que não precisavam ficar aguentando choradeira. Esta receita é uma das primeiras das quais me lembro com muito carinho. Nunca tive coragem de experimentar depois de adulto, para não estragar a boa lembrança. Já cometi este erro ao assistir à versão origin...

Uma carreira brilhante

Apagou o cigarro de cravo no cinzeiro do corredor. Era coisa de moleque fumar cigarro de cravo. No corredor da empresa onde fazia estágio era no mínimo de mau gosto. Desceu as escadas para o andar térreo, onde ficavam a maioria de seus colegas, que já o esperavam para o almoço. Odiava o almoço, estava acostumado com a comida da mãe. Também não gostava muito dos colegas, achava todos um saco. Tinha um futuro promissor. De poucos amigos e provavelmente infeliz, mas promissor. Lá pelas tantas resolveu que sua opinião sobre a economia do país seria relevante. Despejou uma série de chavões, colecionados nos jornais e revistas que lia, e dos noticiários aos quais assistia. A maioria de suas opiniões eram contraditórias, às vezes até preconceituosas e ultrapassadas. Era sempre aplaudido, mais por medo do que por respeito. Sabiam que tinham seu futuro presidente diante de si. Para alguns era triste imaginar o seu destino, liderados por este homem. O tempo passava e ele ia ganhando confiança, e...

Vôo solo

Somente depois de várias horas conseguiu relaxar completamente. Não era a primeira vez em Paris, mas desta vez as coisas seriam diferentes. Sabia que tinha que fazer o check-in no hotel e sair correndo. Não havia muito tempo para descansar, e nem queria, tinha que resolver a situação de uma vez por todas. Esperara sete anos por esta oportunidade. Pegou o mapa do metrô na recepção do hotel e viu que era exatamente o mesmo mapa de sete anos atrás. Desenhou mentalmente a rota e saiu correndo. Estava sujo, sem dormir e com a dor de cabeça que sempre tinha quando bebia no avião, não importava, sua missão era mais importante. Subiu correndo as escadas da estação Cambronne, desceu na Trocadero, correu para pegar o segundo trem, passou vergonha quando teve que pular para dentro enquanto a porta fechava. Fez cara de turista bobo para não deixar dúvidas e sentou no banquinho retrátil da porta traseira do vagão. Esta segunda perna da viagem era bem mais longa, com umas oito ou nove estações...

Passeio

Saíram os três para um passeio vespertino à beira-mar. Se conheciam desde pequenos e tinham uma amizade daquelas que duram todo o verão. Foram longe conversando sobre os planos para o novo ano. Que cursos fariam, que amores esqueceriam e quanto dinheiro deixariam de guardar com as bebedeiras, as viagens e outras atividades de igual importância. Já iam longe e tinham resolvido quase todos os problemas do ano que começava quando Marcelo, o mais velho, falou de como sentia-se bem na companhia dos outros dois e levou uma vaia. Era permitido sentir-se bem, mas não precisava falar sobre isso, era óbvio e estragava o momento. Marcelo sempre falava demais. Rose era a mais nova, e a única mulher. Marcelo e Carlos cuidavam dela como irmã, coisa que ela adorava, quase sempre. Era geniosa e de longe a mais inteligente dos três. Também a mais boêmia e promíscua, para desespero dos outros dois. Ficava com um cara diferente a cada noite, não antes de judiar bastante do pobre coitado e, é claro, de Ma...