quinta-feira, novembro 02, 2017

Peixoto


Acordou muito cedo, mais que o de costume, tomou os remédios, deu comida para o peixe, catou o casaco, a mochila com o notebook, desligou o alarme e foi.

No caminho, escutando Pinkerton, do Weezer, perguntou-se porque tem o peixe. Quase não olha para ele, fica meio escondido na cozinha, como se estivesse sempre na iminência de virar um petisco para acompanhar seu single malt noturno diário, não serve para nada. Mas ele gosta do peixe, que na falta de um nome melhor chamou Peixoto. Mais para Caubi do que para o Marechal, Peixoto é um beta exibido, colorido e inútil. Pensaria depois o que fazer com o peixe, sendo a opção mais provável não fazer nada.

Uns 40 quilômetros já avançados no caminho da Universidade deu-se conta de que não sabia o que ia falar na aula. Isso acontecia todos os dias e, como morava no interior de lugar algum, 120 quilômetros longe da sala de aula onde passava seus dias, sempre tinha tempo de preparar mentalmente o esqueleto da aula, que desenvolveria de improviso, na medida em que o assunto fosse se desenrolando com a ajuda da turma.

Lecionava história da música em um curso de graduação, um dos únicos no país dedicado ao tema. Passaria horas falando sobre compositores clássicos e para, digamos assim, sair do clima, resolveu escutar um clássico do rock no caminho.

Ele adorava o que fazia e por isso mesmo passava o maior tempo possível ensinando, lendo, estudando, escutando música, escrevendo sobre música, indo a shows e concertos até que não sobrava mais nada para qualquer outra coisa. Fuga, alguns diriam. Talvez fosse.

Já chegando na Faculdade de Música com a cabeça cheia dos riffs poderosos de Pinkerton e a letra de Good Life na cabeça, pensando em como muitas bandas chegam no seu auge criativo já no início da carreira (muitas e muitas vezes no segundo álbum), e depois ficam andando de lado por décadas, pensou se não seria esse o seu caso também. Quando mais jovem era um aclamado crítico musical, tendo se aventurado na produção de discos importantes na história do rock, ganhando alguma fama, grana, meninas e algumas encrencas também. Depois andou de lado, não produziu nada com o mesmo impacto dos primeiros anos, ficou amargo, recluso e solitário. Dos bons tempos manteve a paixão pela música e a cadeira na faculdade.


Entrou na sala lotada de alunos ávidos por escutarem seus improvisos, sempre cheios de vida e experiencia, sempre apaixonados e nunca, nunca mesmo, sem opiniões fortes e polêmicas. Os futuros músicos, produtores, críticos ou businessmen da indústria musical estavam quietos, encarando o mestre e esperando a primeira frase como se fosse o primeiro riff de Jimmy Page na Whole Lotta Love. Ele olhou para cima, para os lados, tirou o casaco e pendurou na cadeira mantendo o suspense, olhou para a turma, encarou cada um dos alunos e com uma voz grave, baixa e profunda, perguntou “Pessoal, o que eu faço com o Peixoto?”

quinta-feira, março 23, 2017

Um baita livro


Eu estava no meio da leitura de um baita livro. E vou te falar, quase nada é tão importante quanto estar no meio da leitura de um baita livro, mas as pessoas parecem não compartilhar dessa ideia. Especialmente os dois casais que estavam na mesa de jantar da minha casa, e minha esposa que estava com eles, todos me esperando para começar enquanto eu estava trancado há meia hora no banheiro, sem conseguir largar o livro. Na verdade, não tinha nem me dado conta de que trinta minutos já tinham se passado, quando ouvi o grito mais assustadoramente desesperado que ouvi na minha vida, e não era da minha esposa.

Saí correndo do banheiro, desci as escadas quase sem sentir os degraus debaixo de meus pés descalços e cheguei à sala de jantar. A mesa estava posta, os pratos servidos e intocados, as taças com vinho pela metade sem nenhuma marca de batom das mulheres, a música tocando no meu toca-discos de vinil, as janelas abertas com a lua cheia entrando sem se importar com a cena, e ninguém por ali. Imaginei que poderiam ter se cansado de esperar e teriam saído para o quintal, ver a lua e bater papo com ar fresco, mas as taças de vinho teriam ido junto se fosse o caso. De fato, não tinha ninguém lá fora. Circulei rapidamente pela casa, ninguém. Minha espinha gelou.

Me veio à cabeça que poderiam ter se revoltado com minha demora e resolvido pregar uma peça, escondendo-se em algum canto escuro. Mas era improvável pois não eram amigos tão íntimos assim e, à exceção do Marcão, os outros não tinham um senso de humor exatamente aflorado. Ainda com a imagem de todos escondidos e espremidos em algum canto escuro, que se recusava a sair da minha cabeça por conta da Manu e aquele vestidinho ridiculamente pequeno que ela resolvera usar, lembrei do grito. Aquilo não podia ter sido fingimento. Algo tinha acontecido de verdade.

Circulei mais uma vez pela casa, entrei em todos os cômodos, sem exceção. Até na casinha do Bisteca eu fui dar uma olhada. Nada. Ninguém. Saí de casa, andei pelo condomínio, prestei atenção à movimentação nas casas vizinhas e fui até a portaria. Ninguém tinha visto a Manu, nem nossos convidados. Comecei a ficar realmente preocupado. O que poderia ter acontecido? Como é que cinco adultos simplesmente desaparecem dessa maneira?

Antes de ficar oficialmente desesperado, acendi um cigarro e voltei andando lentamente até a casa, o condomínio é grande e da portaria até lá são uns sete minutos de caminhada. A Manu não gosta que eu fume. Apesar do cigarro baixar um pouco minha adrenalina, estava fantasiando um milhão de possibilidades, todas sem um final muito bom. Não estava preparado para perder a Manu, ainda mais com aquele vestido. Acelerei o passo. Iria chegar em casa, dar mais uma olhada, ligar para a polícia e espera-los enquanto circulava pela vizinhança, fora do condomínio, com meu carro. Estava suando, apesar do frio, o coração galopando daquele jeito que faz com que “galopar” não seja a palavra adequada, mas é a única que chega perto. Faltavam duas casas para chegar na minha, um vizinho que passeava com seu cachorro acenou, devo ter acenado de volta. É um daqueles vizinhos que você sempre convida para aparecer, ele nunca aparece, você dá graças. Perguntei se ele tinha visto a Manu e meus amigos. Nada.

Cheguei em casa, entrei voando, passei pela sala, depois pela sala de jantar, quase chegando na cozinha. Parei como se tivesse dado de cara contra um muro invisível. Olhei para trás, por onde tinha acabado de passar, para a mesa de jantar. Estavam todos lá. Tinham cansado de me esperar e já estavam terminando o jantar, já na terceira garrafa de vinho, meio bêbados. Me olharam como se estivessem vendo um fantasma. A Manu levantou, me puxou de lado e perguntou se eu estava bem. Rosnei alguma coisa, fiz cara de estragado (na verdade não precisei me esforçar muito), pedi licença e subi novamente. Tomei um banho gelado, bem demorado. Saindo do banho vi o livro na pia do banheiro. Peguei o livro e fui deitar, torcendo para ele terminar bem.

domingo, janeiro 01, 2017

Merecidos anos novos


Se tem uma grande coisa sobre este ano de 2016, é que ele não passou suave. Pelo visto para quase ninguém. Ele deixou marcas, algumas profundas. Não é disso que sempre reclamamos? Que nada acontece, que o tempo voa, que a rotina nos engole? Não teve rotina em 2016, a não ser a da reclamação.

Claro que foi um ano duro, não dá para dourar a pílula. Nem se deve. Perdi incontáveis noites de sono em 2016. A situação da política, da economia, da segurança, acordamos sem saber se vamos dormir empregados, ou com nossas empresas ainda operando, o nível de incerteza foi absurdamente mais alto do que o brasileiro entende como normal e confortável. Esse ano foi tudo, menos confortável.

Mas que ano foi esse! Talvez o único que lembrarei para sempre desta década. O mais importante aconteceu, e não acontecia há algum tempo. Eu aprendi como nunca. Comentei com alguns colegas e familiares que fazia anos que eu não aprendia tanto, e é verdade. Em 2015 uma grande empresa familiar de moda em Santa Catarina me acolheu, e eu não poderia ter encontrado empresa melhor, desafio maior e cidade mais perfeita para me encaixar, e encaixar a minha família. Mas foi em 2016 que os testes se colocaram com foça total a cada dia e, com eles, o aprendizado. Aprendi muito sobre este ramo novo de negócio, que antes não fazia parte da minha caixa de ferramentas. Aprendi novas técnicas, que se mostraram necessárias para enfrentarmos a situação que se colocou (só de uma delas foram 10 livros, várias horas de conversas e simulações e um novo treinamento formatado como resultado). Assumi áreas novas na empresa, conduzi projetos difíceis, nem um pouco populares, perdi pedaços importantes da minha equipe e vi colegas talentosos saírem. Tive que passar segurança e garantir a motivação da equipe, mesmo estando inseguro, apesar de muito motivado. Tive que confortar colegas e amigos, ser duro nas decisões impopulares, enquanto mostrava o caminho do futuro, muitas vezes ainda nebuloso. Enfim, nada diferente do que milhares de brasileiros, responsáveis e profissionais passaram, ao contrário do que possa parecer no dia-a-dia, com muita dor no coração, mas sabendo que era a opção correta, para não dizer a única. Corte de custos, inteligente ou não, passa por corte de postos de trabalho, e isso muda a vida das pessoas. De quem sai, de quem fica e de quem já estava à procura.

Depois deste exercício violento (já tinha vivido algumas situações deste tipo, mas nunca desta envergadura), veio o segundo aprendizado: humildade. A gente sempre acha que é humilde, porque é bonito dizer que somos. E eu de fato me acho um cara simples e humilde, mas a humildade não está só na proximidade com as pessoas, e no discurso de bom moço, de autodepreciação forçada para gerar um efeito de empatia, e de realmente se importar com as coisas triviais da vida dos outros. A verdadeira humildade aparece quando você é tão bombardeado por más notícias, desafios e dificuldades que não vê outra opção senão realmente escutar. Do jeito certo, sem pensar no que vai responder, mas internalizando e processando o que está sendo dito. Saí de muitas enrascadas neste ano difícil de 2016 escutando. Tomei melhores decisões (muitas ainda erradas, obviamente). Fui mais humilde. E foi bom. Tão bom que não pretendo voltar, mesmo quando as coisas melhorarem muito e o terreno para nossa arrogância volte a ficar fértil.

Se tem uma coisa que não podemos dizer de 2016 é que ele foi um ano medíocre. As coisas boas, foram muito boas (até porque foram mais raras, o que sempre aumenta a sensação positiva de qualquer coisa, e isso é uma lei de mercado, não é filosofia). As coisas ruins foram de lascar. Não se demitiu gente de baixo desempenho, fechou-se unidades inteiras. Não se fez cortes de custos para atingir o orçamento, jogou-se o orçamento no lixo e cortaram-se todos os custos remotamente duvidosos para garantir o fim do mês. Não se deixou de investir em treinamento, começou-se a questionar a verdadeira necessidade de se treinar. Pessoas boas estão no mercado, desesperadas por emprego, porque gastar com treinamento? Essa era uma pergunta que ninguém fez, mas estava na cabeça de todos. Claro que é ridícula, mas quando o desespero bate meu amigo, coisas feias começam a não parecer tão feias assim.

No final das contas, com tudo isso, a saída mais fácil é reclamar da vida. Ó dia, ó azar! era o que dizia aquele famoso personagem dos desenhos animados. Eu prefiro olhar de um jeito diferente. Se tem um ano que me preparou para o pior, que me ensinou como nunca, que baixou minha bola e colocou minha cabeça no lugar, este ano foi 2016. E isso é bom. Com dor, mas bom. Claro que se a vida for sempre essa montanha russa, não sobra tempo e energia para aplicar de maneira construtiva o aprendizado. Os japoneses já diziam, ao definir kaizen, que a melhoria deve ser sempre seguida de um período de estabilidade e padronização, caso contrário, com melhoria em cima de melhoria, você já nem sabe mais o que está melhorando e se os resultados de fato vieram.

Espero então que 2017 nos dê uma trégua (não espero um ano fácil, veja bem) para que possamos colocar em prática o nosso aprendizado e tentar colher alguns bons frutos. Mas para isso, temos que mudar muito como povo.

Sou brasileiro até o osso, apesar do nariz grande, que denuncia minha descendência árabe por todos os lados. Amo nosso país e quem me conhece sabe que sou um otimista irritante. E essa foi uma das coisas não tão positivas de 2016. Esse ano conseguiu abalar fortemente o meu clássico otimismo. Não entenda errado, não estou falando de otimismo sobre as coisas triviais. Cedo ou tarde encontraremos maneiras de sair do buraco, algum novo país que fez a lição de casa voltará a comprar nossos minérios, nossos grãos, nosso petróleo, e acabaremos retomando nossos empregos e nosso “crescimento”. Estes ciclos macroeconômicos não têm este nome à toa. Meu otimismo está muito abalado em relação ao nosso povo. Sim, eu e você. Tenho refletido muito sobre as possíveis causas dos nossos problemas. Toda vez que aparentemente estamos decolando, que dizem ter chegado a nossa vez, damos um jeito de voltar para o buraco. Por que diabos isso acontece? Quem sou eu para ter a resposta, mas pelo menos tenho duas convicções que podem ajudar na discussão.

Em primeiro lugar, somos paternalistas. Sim, cuidamos dos nossos filhos ensinando-os a ganhar o peixe e não a pescar. Abominamos a palavra meritocracia, pois já assumimos de saída que nem todos têm a mesma chance, portanto temos que cuidar de alguns filhos mais do que dos outros. Pior, temos que condenar alguns filhos que estão melhores do que os outros, porque mereceram estar, mas o outro, coitado, não teve as mesmas chances. Em algumas universidades, com cursos de 40 ou 60 vagas, apenas 5 estão disponíveis para quem não se encaixa em alguma minoria. CINCO. A mensagem que está sendo passada é: não estude, não se esforce, não mereça, pois dá na mesma. As pessoas não sabem batalhar pelo que querem, na verdade não foram treinadas para isso, nem acham que vale a pena. A geração que está agora conduzindo a economia do país, é uma geração mimada, que não passou por dificuldades, que ganhou tudo de mão beijada e não sabe como agir na crise. Você entra em uma loja, vazia, às moscas, e a vendedora te olha com cara de derrota, já prevendo que você é mais um que não vai comprar nada. Em alguns casos fica braba porque você fala que só vai dar uma olhada. Todas as vezes que falo que vou dar uma olhada, acabo comprando alguma coisa, menos com essa vendedora.

Recentemente, um colega que perdeu o emprego me pediu uma recomendação no Linkedin. Fiz o que não se faz e respondi “apesar de te conhecer, nunca trabalhamos juntos, me conte então um pouco sobre tuas habilidades, tuas qualidades, etc, assim posso fazer uma recomendação genuína”. Ele nunca me respondeu. É assim o brasileiro. Te pedi um favor, faça, não volte com questionamentos. Idem para um ex-aluno que pediu ajuda em um trabalho de conclusão de curso. Me empolguei, como sempre, e respondi para ele com umas 10 perguntas. Minha intenção era entender bem o cenário e dar uma puta resposta para o problema dele, mas o fiz dando um pouquinho mais de trabalho para ele. Nunca mais me respondeu.

Não queremos brigar pelo que queremos, e sim ganhar. Não queremos merecer o que queremos, pois achamos que já merecemos, afinal sempre nos disseram que deus é brasileiro certo?

Achamo-nos um povo sociável, amigo e do bem. Não poderíamos estar mais enganados ao nosso próprio respeito. Os maiores vilões estão sempre sorrindo. Amigo mesmo é o cara que não sorri, não te convida para tomar uma gelada, mas não tenta ultrapassar todo mundo no acostamento das estradas lotadas impedindo que uma ambulância salve uma vida, porque o desgraçado (e que fique bem claro aqui que não estou usando as palavras que gostaria) precisa chegar 5 minutos antes na praia. Não somos sociáveis, somos egoístas, mimados e insensíveis, a não ser pelas nossas próprias causas. A Lei de Gerson, essa é a nossa lei. Mas é muito pior, mais grave e mais profundo que isso. Aplicamos a Lei de Gerson, queremos levar vantagem em tudo, convictos de que no nosso caso específico isso não é um problema. Em todos os outros casos é, no nosso não, e daí vem um festival de explicações. Somos egoístas e corruptos, em diferentes níveis, assim como todos os que criticamos. Nos autoenganamos (obrigado Sr. Eduardo Giannetti por um dos melhores livros já publicados em língua portuguesa) o tempo todo, para nossa própria sanidade mental, e para desgraça do nosso país. Não vamos dormir com nenhum peso na consciência, pois agimos de acordo, o inferno são os outros. Não meus queridos, nós somos os outros. Todos os brasileiros são os outros, com louváveis e raras exceções (se alguém conhecer, por favor me apresente, estou precisando recuperar meu otimismo urgentemente).

Minha segunda hipótese de causa para isso que está, sempre esteve e (deusolivre) sempre estará aí, é o fato de não sacrificarmos jamais o nosso presente pelo bem do nosso futuro. Uma das coisas que aprendi em 2016 foi a meditar, e isso tem me feito um bem danado. E meditar é justamente sobre o aqui e agora, sobre nos conectarmos com o que está acontecendo exatamente neste momento, e acredito demais nisso. Mas isso não quer dizer que devamos rifar o futuro do país e das próximas gerações. Devemos nos concentrar no que podemos fazer agora para garantir o futuro, isso sim. Todas as grandes nações sacrificaram algo que lhes era muito caro pensando lá na frente. O mesmo vale para indivíduos, geralmente os ricos sacrificaram algo quando ainda eram jovens e tinham energia sobrando, os longevos não comeram tudo o que gostariam e sacrificaram horas de lazer para cuidar do corpo, e assim por diante. Nós não somos assim. Queremos aproveitar as coisas agora, que se lasque o futuro, até mesmo porque não estaremos lá para ver. Não somos amigos nem dos nossos descendentes. De uma certa forma, esta segunda hipótese conecta-se com a primeira e uma reforça a outra. Uma espiral negativa que nos segura onde estamos.

Falamos mal dos nossos governantes, mas eles resumem muito bem quem somos. Egoístas, mimados, não se comprometem como nada além de seus mandatos e, sabendo que adoramos paternalismo, nos tratam como filhos mimados, que recebem a mesada, mas não estão autorizados a se meterem nos negócios do pai.


Como eu escrevi no começo, 2016 foi um ano de enorme e dolorido aprendizado. Um dos melhores anos da minha vida. Para mim este aprendizado foi pessoal, profissional e espiritual, e valeu muito a pena. As conclusões sobre quem somos como povo é que tem me incomodado, pois sei que mudar isso leva muito tempo. Mas sei também que não adianta apenas apontar as hipóteses, mas agir sobre elas, desde já, se é nisso que você realmente acredita. Estou fazendo minha parte, comigo mesmo, com quem está ao meu redor, com meus alunos, meus filhos, e assim por diante. E aí vem o otimismo que ainda me resta, continuar lutando, não apenas aquela luta diária, estéril, medida pelo esforço, mas a luta verdadeira, meritocrática, transformadora, medida com resultados. Eis meu compromisso de ano novo, ou melhor, de anos novos.

sábado, fevereiro 13, 2016

Tony


Meus filhos, e todas as crianças que conheci até hoje, adoram brincar de esconde-esconde. Eu me divirto demais quando eles são bem pequenos ainda, e não têm um pingo de malandragem. Escondem-se nos lugares mais óbvios, e acreditam do fundo do coração, como se fossem invisíveis, que ninguém os está vendo. E ainda ficam dando aquela risadinha, bem baixinha, como se estivessem fazendo todos de trouxas.

É assim que eu sempre ouvi as músicas do No User for a Name, banda de hardcore melódico do gênio, Tony Sly. O primeiro disco dos caras que eu conheci foi o clássico “Leche com Carne”, gravado para mim em fita K7 por um dos irmãos da cena harcore curitibana. Pouco tempo depois, em uma viagem à França com minha querida mãe, comprei o “Making Friends”, que havia sido lançado naquela semana, para mim o melhor disco de HC da história e provavelmente o CD que eu mais escutei até hoje. Só no discman que levei naquela viagem, devo ter escutado umas 30 vezes em uma semana.

E que porra uma banda de HC melódico e seu líder têm que ver com as crianças brincado? Muito. A grande habilidade de Tony Sly, o que o tornou um dos caras mais admirados desse mundo irregular de bandas de HC, é sua capacidade de criar melodias lindas, colocar em cima delas letras de uma sensibilidade fora do comum, e escondê-las por detrás de uma pancadaria sonora capaz de fazer quaisquer pais de adolescentes que escutam NUFAN desconfiarem que seus filhos estão andando em má companhia. É isso que Tony fez a vida toda, escondeu mal suas brilhantes melodias e ainda ficou rindo baixinho, achando que não tínhamos percebido.

Tempos depois, e já tendo lançado vários álbuns ótimos do NUFAN, Tony decidiu parar de brincar de esconde-esconde. Terminou sua banda e resolveu expor sua melodia e sua dor da maneira mais limpa, transparente e escancarada possível. Desacelerou o compasso, tirou as guitarras velozes e distorcidas, trouxe o violão e o piano e fez dois discos acústicos de arrepiar.

Para mim a boa arte vem do sofrimento. Quem vive tranquilo, não sentiu grandes dores, não ama uma mulher que não corresponde este amor, não esteve à beira de mandar tudo às favas, vai ter dificuldades na vida de artista. Músico, poeta, pintor, todos os bons sofreram, e muito.

Nos álbuns do NUFAN você sente que Tony tem essa “bagagem” maldita, mas ele não entrega o jogo 100%. É nesses dois acústicos que você entende porque ele terminou com a própria vida tão cedo. Porque ele sofria. Ele amava suas duas filhas e a mãe delas com a intensidade típica dos poetas, e tinha que viver longe delas, muito porque sua ex não podia mais com ele. No melhor dos dois discos, Sad Bear, tudo gira em torno disso. Um dia, voltando tarde do trabalho para casa, coloquei Sad Bear para tocar. Ao chegar toquei a campainha e quando meus dois pequenos abriram a porta, agarrei eles e a minha querida com tanta força que eles estão até hoje tentando entender o que houve.

São muitos os momentos sublimes destas duas obras fantásticas, mas só para dar uma ideia, em uma passagem escrita para sua amada ele declara:

“On this winter day I hear the wind call out your name
And it sounded like the scream of summers past
This is therapy for me a mission that my heart is on
I love you plain and simple but it´s sad
That all we want is what we had”

Em outro momento inspirado, aparentemente depois de várias tentativas frustradas de se tornar o que sua mulher precisava que ele fosse, em desespero ele desiste:

“Maybe I cannot change me ´cause I am me”

A frase mais simples, poderosa e desesperada que já ouvi.

Por coisas como estas é que Tony Sly deixou uma legião de fãs e admiradores. Pouco depois dele partir, seu amigo e parceiro de dois outros álbuns acústicos, Joey Cape, juntou uma miríade de artistas do calibre de NOFX, Bad Religion, Rise Agains, entre vários outros, para gravar um disco tributo a Tony, com mais de 30 canções das suas fases HC e acústica. É comovente e ao mesmo tempo atordoante escutar esse disco.


Tony Sly era uma criança no corpo de um bruta montes. Era mais feliz quando brincava de se esconder. Quando amadureceu, sentiu uma dor insuportável, criou suas obras primas e foi embora.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Oriental


Sabe quando você está distraído, sem fazer nada, e fica olhando, sei lá, para o azulejo da cozinha, ou o piso da churrasqueira e assim, do nada, identifica uma forma conhecida. O rosto de alguém, um dragão ou a Luma na Playboy de 2001? Você fixa o olhar para não perder aquilo, vai abrindo o ângulo para tentar geolocalizar a figura e depois poder mostrar para alguém (centro do canto superior esquerdo do terceiro azulejo da segunda fila de cima para baixo) e, mesmo assim, quando olha novamente ela não está lá? Então, é mais ou menos assim a história que eu quero contar. Eu via ela claramente, fiquei pensando nela sem parar e fui guardando elementos, para depois poder colocar no papel, e agora que quero contar, ela meio que sumiu. Claro, não era uma Luma, estava mais para o dragão, mas parecia boa.

Começava com um personagem normalzão tendo algum tipo de problema existencial leve, algo como pedir uma pizza de quatro queijos (sabendo que ali no máximo tem uns três, sendo que um deles é catupiry, o que não conta como queijo) ou um cachorro quente do Au-Au. Nada que fosse mudar o rumo da história, mas aos poucos a coisa ia complicando. O entregador da pizza de dois queijos verdadeiros e um que não é queijo não é um entregador, é uma entregadora. E ela é linda, com uma pinta na testa e olhos puxados, rabo de cavalo e óculos. E ela tem um sotaque que ele não tem a menor ideia de onde seja. Quando ela perguntou, distraidamente, se ele gostaria de experimentar a pizza oriental da próxima vez, a coisa desandou.

A cena cortava com os dois na cama, claro, mas não antes, nem durante e nem depois. Bem depois, com as crianças já grandes. A mais velha casada, com dois meninos; e o mais novo morando com a noiva já há um bom tempo. E é aqui que a história começaria para valer. E é aqui que eu perdi a conta dos azulejos. Lembro da imagem do dragão, mas não consigo mostra-lo para ninguém.

Claro que com um pouco de esforço consigo lembrar que eles tinham vivido bem até ali, o que era uma grande decepção para ambos, em se tratando de um relacionamento que começou com uma cena típica dos melhores filmes x-rated. Vivido bem até ali não era o que eles esperavam. Queriam aventuras, emoções, perigos, intensidade. Acabaram assim, em um casamento tão sem graça quanto uma pizza quatro queijos.

Foi por isso que pediam comida em casa quase todas as noites. Cada vez que o interfone tocava o coração de ambos disparava. Quem será que veio entregar? Será que é a Luma, ele pensava. Será que é a Luma, ela também pensava. (Na verdade eu é que estou pensando na Luma desde o primeiro parágrafo, mas como não lembro direito da história, vou improvisando, os personagens vão me perdoar). Ou um psicopata, ou alguém famoso em uma pegadinha de programa de Domingo, ou o Tiririca. Qualquer coisa que pudesse tirá-los da rotina, apimentar um pouco a relação.

Dessa vez não era ninguém. Atendeu o interfone e não teve resposta. Desceu as escadas do seu apartamento e não tinha ninguém no portão da frente. Subiu novamente e quando se sentou para continuar esperando, o interfone tocou mais uma vez. Atendeu. Nada. Falou alto para garantir, nada. Olhou pela janela, ninguém lá embaixo. Não teve nem tempo de sentar no sofá, o interfone de novo. Foi atender meio desconfiado, olhou antes pela janela, mas lá de cima não dá para ver se a pessoa estiver em um determinado lugar. Atendou já irritado e nada de resposta. Começou a ficar nervoso. Ligou na pizzaria, falaram que o pedido já tinha saído. É sempre assim, o pedido já saiu, nunca dizem quando exatamente e nem se já estão entregando ou se vai levar mais uns três dias. Foi o tempo de desligar o telefone, o interfone tocou pela quarta vez. Dessa vez ele não atendeu. Olhou para ela, que a esta altura já estava começando a chorar e ...


Foi aí que perdi todas as referências. Meu GPS falhou. Não lembro mais da história, e não quero inventar nada assim, forçado. Caso eu lembre, eu termino de contar, por favor entenda. Enquanto isso, vou atender o interfone, deve ser minha pizza. Oriental.

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Silêncio


Dois mil e quinze foi o ano dos meus quarenta anos. Não deve ser isso, mas coincidentemente foi nesse ano que me dei conta de um negócio. E é um negócio importante. Precisamos de mais silêncio, urgente!

Oscar Wilde, no brilhante texto de O retrato de Dorian Gray, em uma passagem na qual o personagem principal não conseguia parar de falar e se exibir, cometeu a pérola “Como todas as pessoas que tentam esgotar um assunto, ele esgotava os seus ouvintes”.

Estamos numa época em que os jantares sociais, pomposos, barulhentos e perigosos foram substituídos pelas redes sociais, com exatamente as mesmas características. Não tem o jantar, mas tem as fotos dos jantares. Não tem a bebida, mas tem as fotos e os comentários sobre as bebidas. Os exibidos e insuportáveis não se encontram ao vivo, mas são igualmente exibidos e insuportáveis.

Esse ano foi especialmente desafiador para qualquer um que insista em permanecer online. Aconteceu muita coisa ruim no mundo, especialmente no Brasil, e todo mundo resolveu que tinha opinião para dar sobre tudo. E foi aí que a coisa degringolou. A grande maioria das pessoas que estão em redes sociais, não cresceram sabendo lidar com crises graves e estão completamente perdidas. É uma bobagem atrás da outra, todas defendidas com uma paixão que se fosse colocada a serviço de resolver problemas, seriamos o melhor país do mundo.

Nos recentes episódios dos ataques terroristas simultâneos em Paris deu para perceber claramente do que estou falando. Quem colocou a bandeira francesa na foto do perfil do Facebook foi questionado sobre seu patriotismo, uma vez que não fez o mesmo com a bandeira do Brasil depois do desastre em Minas Gerais, que ocorreu mais ou menos na mesma época. Como assim? Desastre tem nacionalidade? Tenho certeza que 99% destes imbecis não moveram uma palha para ajudar os conterrâneos, mas é legal xingar, contrariar, questionar. Essa é a nova ordem.

Você pode até perguntar, mas por que não sai das redes sociais se isso te incomoda tanto? Bom, tenho todas aquelas desculpas mequetrefes de quem não quer sair das redes sociais. Juro que se resolvesse eu saia, mas a coisa já foi além. Gostamos da brincadeira, agora temos opinião não solicitada sobre tudo em qualquer lugar, a qualquer momento, não apenas online. Mesmo quando não temos um histórico favorável no assunto, e nem moral alguma para abrir a boca.

Foi exatamente o que aconteceu hoje. Uma grande amiga chegou em casa transtornada, pois está enfrentando um problema gigante e quando juntou as pessoas que teoricamente a ajudariam a acalmar a cabeça, levou bordoada atrás de outra. Um discurso teórico de quem não passou nem perto do que ela está passando. Sintomático. A cara do Brasil de hoje. Se não é com você, soca a bota. Dá tua opinião. De preferência com raiva, com beligerância máxima, que é para esconder a sua estupidez.


Veja bem, quem está escrevendo isso não é necessariamente um cara quietão, em cima do muro, sem opinião forte sobre as coisas. Pelo contrário, cumpro muito bem a minha cota verbal, sempre tive aquela necessidade terrível de deixar tudo muito bem explicado, claro como o céu sem nuvens, muito parecido com o personagem clássico de Wilde. Claro que com o tempo você vai percebendo cada vez mais o valor do silêncio, e isso pode estar influenciando a minha percepção sobre o que foi 2015 no Brasil, mas dá uma passada lá no “Face” agorinha mesmo e me diz se estou viajando.

terça-feira, setembro 29, 2015

Um presente para o futuro


Certa feita estava assistindo a uma palestra do economista Eduardo Giannetti, grande autor de livros que versam sobre temas dos mais variados, como o genial “Auto-Engano”, sobre nossa capacidade de mentir para nós mesmos para tornar nossa vida mais fácil, e potencialmente menos produtiva. Na palestra, que não tinha nada que ver com o livro citado (só o fiz porque realmente gosto da obra), ele soltou uma frase um tanto óbvia, mas tão precisa quanto um matemático russo, sobre o povo brasileiro, que nunca mais esqueci. Nada nos define tão bem como a frase “não estamos dispostos a sacrificar um milímetro do nosso presente em benefício de um futuro melhor”. Está aí, o povo brasileiro em uma frase.

Brasileiro em geral não joga xadrez. Não porque é menos inteligente que outros povos, ou qualquer coisa que pensem por aí, mas jogar xadrez significa pensar pelo menos duas jogadas a frente, e nós estamos apenas preocupados em comer o peão que está diante de nós. Ou a peoa, para não pensarem bobagem, outra coisa que adoramos. Não temos paciência, somos imediatistas. Somos sensitivos e não intuitivos. Isso, claro esteja, em geral, mas é o geral que nos define, não é mesmo?

Mãe e filha, algumas décadas atrás, se juntaram para estudar Karl Jung, pode uma coisa dessas? Estavam tentando entender melhor as pessoas para organizá-las melhor nas atividades do dia-a-dia durante a segunda guerra, e concluíram que estudar o discípulo de Freud seria um bom começo. Os homens tinham ido à luta e elas precisavam se organizar melhor. No final das contas entenderam Jung e criaram um sistema de avaliação do tipo psicológico humano chamado MBTI (Myers-Briggs) type indicator, ou indicador de tipo psicológico da Myers e da Briggs. As danadas deram um jeito, como boas americanas, em resumir os extensos volumes de Jung em um sistema de 4 letrinhas que contam muito bem como você funciona. Eis que a segunda letrinha pode ser S ou N, Sensação ou iNtuição. Basicamente (desconto máximo por favor, pois é um leigo não psicólogo escrevendo sobre Jung e afins) essa letra define o modo como percebemos o mundo. O Sensitivo precisa, como São Thomé, ver para crer. Não adianta explicar um negócio para o Sensitivo, ele tem que tocar, experimentar, ver, respirar. Só enxerga o que está na frente dele. Já o iNtuitivo tem a visão além do alcance, enxerga lá na frente. Não precisa provar o pudim para gostar do pudim. Tem vantagens e desvantagens ser um ou outro, claro, como tudo na vida. Desconfio seriamente que coletivamente somos Sensitivos, os brasileiros. We want it all, and we want it now!

Esse nosso jeitão, por assim dizer, nos torna alvos fáceis do que o grande Peter Senge, em seu ainda maior livro “A Quinta Disciplina” chamou de arquétipo da “Transferência de Responsabilidade”. Funciona assim, você tem um problema, com um sintoma, e usa uma solução de curto prazo para corrigi-lo. Isso produz resultados imediatos aparentemente positivos. Parece estar tudo certo, uma vez que o sintoma desaparece, ou diminui consideravelmente, mas a causa do problema ainda está lá. Quanto mais aplicamos esta solução, menos nos preocupamos em utilizar medidas de longo prazo, definitivas, para resolver a causa do problema. Com o tempo, nossas habilidades para encontrar a solução fundamental vão se atrofiando, o que nos força ainda mais a usar as soluções paliativas. O problema cresce, como todo problema mal abordado, até ser tarde demais.

Ora, se somos ansiosos por prazer imediato, não sacrificamos o presente para ganhar no futuro, só enxergamos o que está diante do nosso nariz, e isso é o que interessa, dificilmente conseguimos fugir da espiral negativa da “Transferência de Responsabilidade”. E é aí que a gente dança.

Se levarmos essa questão para a esfera política a coisa complica ainda mais. Somado a esse nosso modo de ser, existe o efeito perverso do mandato de 4 anos, do sistema eleitoral. Além de não ser bom em enxergar as próximas 3 ou 4 jogadas à frente, eu não quero enxergar, pois já estaria falando de colher benefícios na próxima gestão. E a próxima não é a minha. E o que interessa sou eu, não quem me elegeu. Para citarmos um exemplo contemporâneo (estou escrevendo isso em setembro de 2015), esse aumento de impostos no auge de uma crise econômica, das piores das últimas décadas, é a medida típica do “resolve o agora e rifa o futuro”. E não estou falando de um futuro distante. Tenho um rombo no orçamento, forço o povo a pagar mais, arrecado mais, cubro o rombo. Faz sentido né? Sim, se você ainda não leu o prefácio do volume 1 do livro básico de economia. E estamos falando de um cara que conhece o negócio. Ou seja, nosso jeito de ser somado ao jogo político nos joga em uma esfera onde até o mais básico é jogado no lixo. Essa é a fonte da nossa burrice coletiva. Não uma burrice intelectual, ligada ao QI, mas uma burrice operacional, processual. Temos pessoas inteligentes operando um processo torto. Não existe jeito certo de fazer a coisa errada.

Tem uns tipos por aí com saudades da ditadura militar. O principal argumento é que naquela época foram criadas as maiores empresas do país (estatais, algumas das quais hoje envolvidas em alguns escândalos que estão dando Ibope), as maiores estradas, portos, etc. Pensa um pouco, os militares tinham tanta certeza que permaneceriam para sempre no poder que era fácil pensar em investir a longo prazo. Não precisariam deixar seu legado para ninguém, pois não existiria ninguém depois deles. Cuidado, o fato de os militares terem perseguido quem hoje está no poder, não significa que é o oposto perfeito de quem lá está. Nada contra militares, que fique bem claro, só cuidado com o que você deseja.


O que estou tentando dizer com essa história toda é que podemos reclamar a vontade, e temos que reclamar (e de preferência dar um jeito nestes loucos que estão acabando com o país), mas uma vez mais, trocar quem lá está seria apenas a solução de curto prazo (e na minha opinião ela deveria ser tomada sim), mas para provar que aprendemos a lição, que estamos desenvolvendo a capacidade de pensar pelo menos duas jogadas à frente, teríamos que ser capazes de sacrificar um pouco o presente em prol do futuro. Como? Elegendo quem está disposto a perder alguns votos baseados em paternalismo, mesmo com o risco de perder as eleições, em favor de um plano de verdade. Esse nós nunca tivemos.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Sobre chuva de sapos e um menino sírio


O cinema, como em muitas vezes, especialmente em situações complicadas, nos ajuda a entender o que acontece na vida de verdade. Boa parte das vezes nos levando aos extremos.

Quem lembra do filme Magnólia, de1999, não deve ter se esquecido da famosa cena da chuva de sapos. O filme é uma coletânea de absurdos aos quais estamos acostumados e, de verdade, não achamos mais absurdos. A cena é o resumo perfeito de todo o resto do filme. Um dos personagens está dirigindo seu carro quando começa a chover sapos. O estranhamento dura poucos segundos, para logo em seguida as coisas voltarem ao normal. Sem sustos, sem questionamentos. Estamos anestesiados.

O oposto total é belamente retratado no filme A espera de um milagre, curiosamente do mesmo ano de 1999. O personagem de Michael Clarke Duncan é um presidiário no corredor da morte, falsamente acusado de assassinar duas crianças, e supostamente com poderes sobrenaturais, especialmente o de cura. Em uma explicação muito tosca, ele é uma espécie de esponja de todo o mal do mundo, de todas as coisas ruins que acontecem. Tudo o afeta. Sofre com o sofrimento de todos, e isso é o pior castigo, muito pior do que a prisão.

Eu achava, até hoje cedo, que estávamos irremediavelmente pendendo para o lado da anestesia. É tanta notícia ruim, que acabamos nos acostumando. Responda com sinceridade, como aguentaríamos sofrer profundamente com cada notícia de bomba no oriente médio? Chove sapo o tempo todo, e não achamos mais que isso é absurdo. O problema é que ontem não choveu sapo, não senhor, ontem choveu lava, ácido, qualquer coisa que seja, que acabou arrancando um pedaço da minha alma. Sofri o sofrimento do mundo, e está demorando para passar.

Não sei se foi a imagem em si, ou o fato de eu ter um menininho de 3 anos (que tem pelo menos metade do sangue sírio por culpa minha), ou se apesar de anestesiado eu ainda sou humano, mas o ocorrido com o menino Sírio encontrado morto em uma praia da Turquia me abalou absurdamente. Pela primeira vez tive medo, muito medo de que tipo de lugar estamos deixando para as crianças que não tiveram a mesma sorte do pobrinho sírio.


Que esse pai tenha forças para superar o insuperável, ou pelo menos para encontrar um jeito de continuar vivendo. Que pelo menos essa tragédia sirva para deixarmos o absurdo para as telas do cinema.

terça-feira, março 10, 2015

Uma frase todo dia


Existem pelo menos dois filtros importantes entre o que um escritor sente e o que ele coloca no papel. Os grandes escritores são os que conseguem transpor esses dois filtros, quase como se eles não existissem. Imagine que você está embalando seu filho no parque da praça, ou observando um grupo de amigos na mesa ao lado no restaurante, ou ainda vendo uma moça triste sentada na janela do ônibus, indo para o trabalho. Essas cenas te inspiram e trazem uma sensação muito cristalina de que algo deve ser escrito. Você sabe exatamente o que, por um milésimo de segundo tem a certeza de que vai escrever a melhor coisa da tua vida. É aí que o primeiro filtro entra em ação. Como sabe que aquele sentimento é altamente fugaz, racionaliza-o para ficar mais fácil de memorizar. É como se estivesse digitalizando uma imagem para poder guardar no seu HD. Por melhor que seja o scanner, a imagem digitalizada será sempre menos nítida, menos vívida, mais limitada, menor do que a imagem real. Aí caímos no segundo filtro, que é o de transformar a ideia racionalizada em palavras. Usando a mesma metáfora, mesmo que a imagem digitalizada seja pobre em relação à original, ela será sempre melhor do que um texto explicando a imagem. Imagina uma explicação textual sobre a Monalisa, por melhor que seja, não é a Monalisa. Os gênios, os de verdade, são os que não apenas minimizam o efeito destes dois filtros, mas dão um jeito de o resultado final ser melhor do que a sensação original. Trocam o filtro por um amplificador. Tenho certeza que a Gioconda não tinha nada demais ao vivo, e vejam no que deu. Mas não é para qualquer um . Eu mesmo tento o tempo todo me livrar dos filtros, mas quando vejo, ou leio o que escrevi, sempre está longe demais da ideia original, mais ainda do sentimento original. Uma frase por dia, é o que dizem para você ficar bom no negócio. Sigo à risca, mas não é fácil. Aliás, PQP como é difícil. Tá vendo só que merda, minha melhor ferramenta para ilustrar o quanto é difícil é um “puta que o pariu”. Continuarei praticando. Uma frase todo dia.

sábado, fevereiro 14, 2015

Damien


Muita gente conhece o Damien Rice, ou até mesmo virou fã do cara por conta da Blower´s Daughter, música do disco “O” que aparece no filme Closer. É dos raros casos em que a turma lembra mais da música do que do filme, apesar de ser um filmaço. Para piorar, alguns não o conhecem, mas adoram a música na sua lamentável versão em português, desgraçadamente chamada “É isso aí”, gravada por Seu Jorge, Ana Carolina ou sei lá quem diabos.

Para quem, apesar de gostar de Blower´s Daughter, acha que Damien Rice tem mais café no bule, a espera para o lançamento de um novo álbum acabou. Oito anos depois do lançamento de “9”, o cara acaba de lançar seu terceiro disco de estúdio “My Favourite Faded Fantasy”.

Produzido pelo doidão barbudo Rick Rubin, não dá para dizer que não valeu a espera. O disco é bom e deve acalmar os pacienciosos fãs do irlandês. O problema é que se esperava mais do cara, e algumas coisas se perderam nestes 8 anos de semi-reclusão. O álbum tem poucas canções, oito no total, uma para cada ano sem molhar o bico. Todas muito bonitas, bem compostas e muito bem gravadas. Está quase tudo lá, a emoção crescente a cada faixa, o piano, a orquestra acompanhando e as letras de amor, entretanto, falta brilho e energia. Justamente o que menos se espera que faltará em um disco produzido pelo cara que produziu, por exemplo, Slayer.

O ponto aqui é que o disco é literal demais, para um cara que se destacava justamente por não entregar o jogo tão fácil. As melodias são mais lineares e seguras, as letras falam de amor diretamente, coisas do tipo “Wherever you are / Well, know that I adore you / No matter how far”. Pelamordedeus Damien, você é melhor que isso!


Essa é a toada geral do disco, mas existem exceções honrosas, como é o caso da “The Box”. Talvez a melhor música do cara até hoje, bem no estilo dos dois primeiros discos, com um final de arrepiar, estilo cena principal de filme europeu. Em uma passagem da música, ele canta “And I have tried but I don't fit / Into this box you call a gift / When I could be wild and free / But god forbid then you might envy me…” Tá aí Damien, você realmente deveria ter sido mais “wild and free” dessa vez.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

João


E tem o João, que era representante de uma empresa que representava materiais e equipamentos elétricos e de automação de outra empresa bem maior, e francesa. A francesa não tinha unidade aqui na região, e escolheram a empresa do João para representa-los. Para ser bem honesto, eu não gostava muito do João. Eu era cliente dele, mas achava ele muito bola murcha, se é que ainda existe essa expressão. Devagar mesmo, pouca energia. E um pouco reativo também, do tipo que não assume a responsa de muita coisa e faz aquela cara de “o que é que eu posso fazer?” No final das contas, eu estava errado. Era preconceito porque ele não era igual a mim. Onde já se viu não ser igual a mim?

Um dia eu estava de férias, como eventualmente a gente fica, em uma cidade do litoral chamada Itapoá. Não tinha nada lá, à exceção da pousada em que estávamos, casas, terrenos vazios, alguns restaurantes e um centrinho bem desprovido. Ah, e tinha uma farmácia. E foi lá que a coisa complicou. Minha esposa comprou uns remédios e tentou passar o meu cartão. Ela achou que sabia a senha, mas não sabia. E tentou a senha que não sabia umas 3 vezes e não funcionou. Devolveu-me o cartão dizendo que estava com problema e ficou assim.

Não podíamos ficar sem cartão, pois isso significaria ficar sem dinheiro para terminar as férias. Tenho o grave problema de não carregar dinheiro nem para o café do assaltante. Peguei o carro e fui até Guaratuba, outra cidade litorânea, um pouco mais bem equipada. Descobri no caixa automático que minha esposa tinha razão, o cartão não funcionava. Alguns quilômetros dirigindo no sol escaldante para descobrir que minha esposa tinha razão, o que é algo bem frequente e obvio. Voltei para a pousada em Itapoá e vi como única alternativa ligar para o gerente do banco que, por uma sorte danada, estava na minha lista de contatos do celular. Ele atendeu:

- Alô.
- João, tudo bem, é o Rodrigo.
- Tudo bem e você? Sumido!
- Pois é, na correria, você sabe. – lembrando, eu estava de férias – Escuta João, eu sei que está tarde e a agência fechou, mas vou precisar de uma ajuda urgente. Estou no meio do nada e aconteceu alguma coisa com meu cartão – àquela altura eu ainda não sabia das 3 tentativas frustradas da minha esposa de usar o cartão na farmácia. – Preciso sacar dinheiro e não consigo.

Não deu nem tempo de eu perceber o ponto de interrogação gigante em forma de silêncio do outro lado da linha. Rapidamente ele respondeu:

- Estranho, mas você tentou ir num caixa?
- Sim, estou em Itapoá, que não tem nada. Fui até Guaratuba e tentei, mas sequer entra na conta.
- Estranho. Desculpe perguntar, mas você está com saldo? Não estourou tua conta?
- Porra João, é por isso que estou te ligando. Teoricamente não estourei, pois saí com a conta em ordem e não me lembro de nenhum gasto exagerado, mas precisava que você visse o que houve.
- Rodrigo, vai ser bem difícil eu ver isso agora, mas me conte uma coisa, será que você não bloqueou o cartão sem querer?

Estava pronto para dar um xingo nele quando a imagem da minha esposa na farmácia, dizendo que o cartão não funcionava, pulou na minha cabeça. Não dei o xingo:

- Puta merda João, acho que você está certo. Deixa eu ver o que houve e depois te ligo.
- Claro, a hora que quiser.

Depois de esclarecer o caso com minha esposa, cheguei à conclusão que não teria outro jeito senão esperar o dia seguinte, ligar para o João novamente, e pedir para ele desbloquear o cartão quando estivesse na agência. Estava voltando para o quarto da pousada quando a ficha caiu. “Caraca, eu liguei para o João errado.” Eu tinha sentido algo estranho na conversa, mas minha indignação era maior e continuei. Era o João lá do primeiro parágrafo, do qual eu era cliente pela empresa que eu trabalhava. Olhei no celular e confirmei a gafe. Voltei para a rua, onde o sinal do celular era forte o suficiente para fazer ligações, e o chamei novamente:

- João seu louco, é o Rodrigo de novo.

A esta altura ele deve ter pensado, “caramba, eu é que sou o louco?” E respondeu:

- Fala Rodrigo, descobriu o que houve?
- Cara, por que você não me mandou pastar? Por que não falou que eu tinha ligado para o João errado? Para não te encher o saco naquela hora da noite?
- Mas você não estava enchendo o saco, estava com um problema e se eu pudesse ajudar que mal teria?
- O pior é que você tinha razão, o cartão deve estar bloqueado, pois erramos a senha 3 vezes seguidas numa farmácia.
- Acontece sempre, mas amanhã cedo já conseguimos resolver. Qual o teu banco e a tua agência, eu vou lá para você amanhã.
- João, vai tomar banho cara, eu resolvo por telefone. Relaxa. Cara, muitíssimo obrigado pela ajuda viu, e da próxima vez me manda pastar ok? Abraço.
- Valeu, se precisar de mais alguma coisa liga aí.

E foi assim que o João errado fez eu me sentir mal comigo mesmo por um bom tempo. Não por tê-lo incomodado, mas por tê-lo julgado errado por tanto tempo até aquele telefonema. Eu era cliente dele em uma conta vultuosa, tudo bem, mas acima de tudo eu era alguém que precisava de ajuda. E se ele tinha alguma chance de ajudar, ele não pensaria duas vezes.


Aqui na empresa onde eu trabalho, existe um processo de avaliação de desempenho dos colaboradores, que roda a cada semestre. Várias competências são avaliadas. Entre competências técnicas e comportamentais, existe uma chamada “Esforços voltados à satisfação do cliente” e outra chamada “Vontade de ajudar”. Sempre que alguém me pede para explicar melhor alguma dessas competências, eu pergunto, você tem tempo para eu contar uma história? E conto a história do João.

sábado, novembro 15, 2014

Ex piá de prédio


Um ano de casa nova, o que para mim significa meu primeiro ano morando fora de um apartamento. Eu sei, sou piá de prédio, empinava pipa no ventilador, fazia acampamento no carpete da sala e tal. Não precisa falar. Mas isso mudou.

Maridos de aluguel, tremei! Não precisamos mais de vocês. Agora eu tenho furadeira (emprestada do sogro tá bom, mas tenho) e já descobri que existem brocas para diferentes tipos de superfície. Eu limpo a piscina, faço pequenos consertos na cisterna, na bomba d´água, em instalações elétricas (e não estou falando de trocar a lâmpada engraçadões), molho a grama e, pasmem, lavo o carro. Sim, eu lavo o carro com a ajuda imprescindível dos meus dois meninos. Com água da chuva, é claro, devidamente armazenada, afinal, somos ecologicamente corretos, o que significa que em Curitiba é obrigatório a ter cisterna para água da chuva senão a prefeitura não aprova o projeto da casa.

Mas a principal mudança, a que me qualifica definitivamente como um homem, digamos assim, prendado, um ex piá de prédio, é que eu faço churrasco. É isso mesmo que você leu. Eu faço churrasco, e não é pouco. Nestes 365 dias de casa nova, devemos ter feito por baixo uns 130 churrascos, sem exagero. Me empolguei. E aprendi a fazer direitinho, carne boa, só com sal grosso, palmito na brasa, cebola na brasa, milho na grelha, linguiça, coração de galinha para os piás e assim por diante. Não tem prá ninguém, a churrasqueira tá dominada. Churrasco e cerveja. Como resultado, 5 quilos a mais em um ano.


Está todo mundo mais feliz por aqui. Afinal, o que são 17 quilômetros para chegar ao trabalho e outros 17 para voltar para casa no final do dia se, quando você chega aqui, tem dois pequenos com uma bola de futebol te esperando e uma lindona com a carne já comprada, a garrafa de vinho já aberta e uma lista de furos para fazer nas diversas paredes da casa?

sexta-feira, abril 25, 2014

A copa já era


“A Copa já era”, “O país vai explodir em 2015”, acabo de surfar por menos de 3 minutos pelo Facebook e dou de cara com posts deste tipo. Apesar de ter muito pouco tempo disponível para qualquer coisa que não seja minha querida, meus pequenos, meus trabalhos, minhas leituras, minhas músicas, minhas escritas e minha tentativa patética de jogar tênis uma vez a cada lua cheia de ano bissexto, faço questão de estar no Facebook.

Tenho uma série de motivos para isso, mas tenho certeza que isso não te desperta nenhum interesse. Mesmo tendo decidido estar por aqui, não quer dizer que acho tudo o que publicam bacana, correto ou minimamente adequado. Tudo bem, todo mundo tem opinião, mas poxa vida, pense meio segundo antes de publicar qualquer coisa, pelo amor de deus. Veja bem, não estou radiante com a copa e não tenho certeza se 2015 vai ser um ano bom ou não, mas a copa já era? O país vai explodir? Tenha dó.

Entenda uma coisa, por favor, a copa, goste você ou não, vai acontecer. Temos outras prioridades, claro! Se eu pudesse votar, escolheria não ter a copa aqui. Obvio (ainda mais porque odeio futebol)! Mas vai acontecer e somos uma nação. Custa pelo menos torcer para não passarmos vergonha internacional? Quem sabe até ajudar? Na boa, estou até anotando alguns nomes aqui. Tenho certeza que vocês vão gritar gol quando a seleção brasileira o fizer, e vão postar aqui no Facebook. Tá bom, não serão tão ingênuos de postar no Facebook, mas vão abrir uma cerveja e comemorar o gol. Certeza!

Outra. O país não vai explodir em 2015. Sabe por que? Porque o calor é feito na rua e não no teclado do teu notebook de última geração. Gritar por aqui não serve para muita coisa. Por favor não achem que sou pró PT ou qualquer coisa do tipo. Muitíssimo pelo contrário. O problema é que não adianta reclamar sem fazer nada. Gritar de dentro do teu apartamento. Isso é coisa de piá de prédio, e olha que disso eu entendo. Não tenho a menor competência para discutir política, e acho que o PT está fazendo uma lambança desgraçada, e vamos pagar a conta muito em breve, ou já estamos pagando, mas explodir?

Agora me conta uma coisa, se todo mundo que aqui habita sabe que a copa já era, e sabe que o país vai explodir, estão fazendo o que aqui? Vamos analisar, se você está aqui porque gosta do país e está triste porque a coisa anda mal, por que não se mexe para mudar? Ao invés de torcer para a copa ser um fiasco e tirar sarro dos voluntários, porque não mostra que você, sabichão e extremamente competente, não consegue ajudar a arrumar a coisa? Por outro lado, se não gosta daqui, ou realmente acha que não tem jeito e que vamos explodir, por que não foi embora ainda? Gosta de sofrer? Tem terapeuta que trata isso direitinho. Resumindo, se você é tão melhor do que a grande maioria dos brasileiros, acha o país uma piada, acha que não tem jeito e torce para dar tudo errado, cai fora!

Vou reforçar, para não ter erro: não estou satisfeito com a situação, acho a administração do PT um absurdo (para usar palavras de bom tom), não gosto de futebol e copa do mundo (assisti apenas os últimos 15 minutos dos jogos do Brasil na última copa, pois estava produzindo), estou preocupadíssimo (para não dizer desesperançoso) com as decisões econômicas e o rumo que a coisa está tomando, e assim por diante. A única coisa é que ainda acredito no nosso país, na nossa gente e na nossa capacidade de nos reinventarmos, do nosso jeito torto, tudo bem, mas ainda assim melhor do que muita gente. Pense bem, você não é um patriota por fazer barulho, você é um patriota quando faz alguma coisa de verdade, com resultados concretos para nossa nação.

Corro um risco danado colocando essa opinião minimamente otimista, totalmente contra a maré, aparentemente mais cool, dos reclamões. Pior ainda, indiretamente estou dando uma alfinetada em um monte de gente boa e que eu adoro, mas que não consigo reconhecer pelos post que colocam por aqui. Eu sempre fiquei na minha no Facebook. Talvez este seja o pior lugar do mundo para dar opinião, mas infelizmente também é o lugar onde a opinião faz mais eco. E dar opinião para ninguém ver não faz sentido.

domingo, fevereiro 23, 2014

1001


Estou vendo uma pilha de livros aqui no meu escritório. Estão todos no chão, onde ficarão por anos, ou para sempre. Aliás, essa pilha em especial me indica que eu vou durar para sempre, mesmo sabendo que não vou. São cinco livros, 1001 filmes que eu tenho que ver antes de morrer, 1001 discos que eu tenho que ouvir antes de morrer, 1001 vinhos que eu tenho que tomar antes morrer, 1001 comidas que eu tenho que experimentar antes de morrer e 501 grandes escritores que eu tenho que ler antes de morrer. O pessoal sabe que a gente é ruim de leitura e pegou mais leve.

Fiz umas contas aqui, e cheguei à conclusão que não vai dar nem para ler estes cinco livros antes de morrer, quem dirá fazer tudo o que eles ordenam. Se a dona morte levar isso ao pé da letra, pronto, achei a receita da vida eterna. É só comprar dois ou três destes livros. Tudo resolvido.

Até o final provavelmente vou ter comido, sei lá, um terço do livro de comidas, bebido uns 10 dos 1001 vinhos, assistido talvez um quinto dos filmes e lido metade dos autores. A única certeza que eu tenho é que os 1001 discos não me escapam. Virou meta pessoal. Não que seja muito difícil, pois já devo ter escutado uns 80% deles. Mais fácil ainda por estarmos falando de uma lista basicamente composta de artista de pop/rock de língua inglesa, o que casa perfeitamente com minha preferência musical.


De qualquer forma, vou escolher um ou dois dos 1001 que não me despertem muita curiosidade e vou deixá-los de lado. Sei lá, chame de superstição. Vai que a morte é ruim de conta.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Até que a morte nos reúna


Essa semana foi a vez da tia Samira. No final das contas, esse negócio de morte é bastante democrático mesmo. Tem para todo mundo. Bom ou mau, bonito ou feio, e assim vai. Minha madrinha, que eu sempre chamei de tia, era na verdade minha tia avó, mas eu nunca via ela dessa maneira. Como o filho mais novo dela tem a minha idade, e eramos muito amigos, unha e carne, para mim ela sempre foi simplesmente a tia Samira. E essa semana ela zarpou.

Lutou uns 20 anos contra o câncer. Teimosa e briguenta, deu trabalho para o desgraçado, mas no final ele venceu. A gente acha conforto no fato de que ela descansou, mas vou te falar, foi foda perdê-la. Não que nós nos víssemos muito ultimamente, mas isso é um detalhe pequeno. Pode não parecer muito para quem olha de fora, mas eu amava muito aquela mulher.

Por uma sorte danada, ou arranjo do acaso mesmo, nos últimos meses eu a encontrei umas três ou quatro vezes. Tive a chance de levar meus pequenos para ela conhecer, tive a chance de levar um exemplar do meu livro para ela ler e, segundo relatos, rir e se emocionar. Enfim, tive mais chances do que merecia, e por isso sou profundamente grato.

Durante o velório, pelo menos umas cinco pessoas vieram me falar sobre o quanto ela me amava e tal. Eu sabia, pois ela sempre me dizia, mas ouvir de tanta gente me elevou a um estado de espírito inexplicável. De repente eu não estava mais simplesmente triste com a perda da minha madrinha querida, mas agradecido e lisonjeado por tê-la tido em minha vida.

Enquanto eu a carregava, junto com outros que a amavam, e que ela amava, lembrei-me de todos os momentos importantes que passamos juntos. São inúmeros para listar, mas sem dúvidas ajudaram a forjar minha personalidade e meus valores. No final, quando ela já estava enclausurada por pedras, tijolos e cimento, dei um abraço forte no meu primo e eterno "melhor amigo", mesmo que nossas vidas tenham se separado radicalmente. Um abraço que estávamos devendo um ao outro há muito. Cada um foi para seu lado, os parentes e amigos foram dispersando, o sol, desimpedido, castigando, a tristeza apertando e a tia Samira ali, para sempre, até que a morte nos reúna.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Ontem foi dia dos professores


Ontem foi dia dos professores. Recebi algumas mensagens de parabéns de ex-alunos e alguns atuais. Claro que eu fico feliz, lisonjeado pela lembrança e tal, mas confesso que não sinto que mereça. Explico, eu não sou professor, eu dou aulas. E, acredite, uma coisa é bem diferente da outra. Dou aula por pura paixão pelo assunto que eu trato, também como hobbie e, por que não, como um complemento de orçamento.

Ser professor é outra coisa muito diferente e bem mais complicada. Tem que ver com doação completa, com ideais bem específicos, crenças inabaláveis sobre o que realmente importa para a construção de uma sociedade, e é aí que a coisa complica.

Lembro que, logo que me formei, resolvi fazer um mestrado. Muito mais por não saber onde iria trabalhar ainda do que qualquer outra coisa. Logo que comecei o programa, tivemos um almoço de família na casa de meus pais. Quando meu velho contou para a família que eu tinha começado os estudos para me tornar mestre (meu velho adora grandes anúncios) um dos meus tios me olhou muito espantado, com uma cara de profunda preocupação comigo, e disse “mas você vai ser professor?” Nunca vou esquecer aquele momento. Estava estampado na cara dele um resumo muito claro de todo o desprezo que nossa sociedade tem para com esta classe de profissionais. E existe um paradoxo aí, que nossa burrice coletiva não nos permite equacionar, mas que a frase do meu amigo Jason Salles Rosa resume à perfeição “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores”.

Para mim, de coração, é fácil ser professor, mas é injusto que me chamem assim. Difícil é ser professor de verdade, como primeira escolha de ocupação, com o reconhecimento social e financeiro encolhidos que esta profissão traz.

Minha querida esposa se encaixa nesta segunda categoria, a dos professores de verdade, e vem batalhando com o dilema entre fazer o que ama ou ter “glamour profissional” desde que nos conhecemos há quase quinze anos. Pelo retorno que ela sempre teve dos alunos dela, ter optado por fazer o que ama tem se pagado, mas nem sempre é assim. Não para todos.


Minha homenagem aos professores de verdade deste país se resume à seguinte pergunta, aproveitando descaradamente o caminho aberto pelo Jason: ninguém em sã consciência entra numa concessionária da BMW esperando sair de lá com o último modelo e pagando o preço de um Mille. Por que então nossa população acha que pode fazer isso quando estamos falando da educação das nossas crianças, jovens e profissionais? Acho que a diferença é que de carro nós entendemos bem.

segunda-feira, agosto 05, 2013

Cheiro bom


É estranho um cara com o nariz que eu tenho nunca ter escrito nada sobre aromas, odores e afins, certo? Não. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Nariz grande não quer dizer que cheiro melhor.

Uma vez tentei entender mais de vinhos, e foi quando descobri que meu olfato é uma porcaria. Cheguei a me animar em uma das aulas que fiz sobre o tema. Enquanto o enólogo descrevia as notas frutadas do tinto que estávamos analisando, com um leve toque de sei lá o que, lembrando alguma coisa das savanas do sudeste sei lá de onde, e assim por diante, eu estava tão empolgado que sentia o gosto do vinho enquanto inspirava com o nariz enfiado na taça de cristal. Foi quando me dei conta que era o gosto mesmo. Meu narigão chegou ao fundo da taça e eu estava literalmente tomando o vinho. Foi aí que desisti de ser metido a besta.

O fato é que, mesmo com meu olfato precário, em alguns momentos ele me surpreende e ajuda a trazer lembranças deliciosas da vida. E hoje foi um desses dias. Sol sem nuvens, ar um pouco seco, frio gostoso (uma semana depois de ter nevado em Curitiba, 38 anos depois da última), é o clima perfeito para que os odores da cidade viajem com facilidade e invadam os ambientes desprevenidos. E assim foi. Estava no táxi indo para um treinamento, janela semiaberta, cruzando a cidade, quando o desfile começou.

O primeiro que chegou foi um odor de café da manhã. Passávamos por uma região cheia de padarias e botecos, todos já preparando as refeições matinais do povo que não consegue comer em casa, ou não tem ninguém para partilhar deste momento. O cheiro era de pão com manteiga derretida, misturado com café e fritura (provavelmente do chinês da pastelaria). Fantástico. Os americanos, que sabem como ninguém inventar nome para as coisas, inventaram o nome comfort food para este tipo de comida. Aqui a gente chama de comida de vó, comida de sítio, ou sei lá que outras variantes existem. Passei o dia com fome, cada vez que lembrava do cheiro.

Depois, sei lá de onde, veio um aroma de perfume barato de mulher, daqueles bem doces e que existem desde sempre. Lembrei na hora da minha pré-adolescência (uns 12 anos por aí) quando em uma festa americana no verão dancei com uma menina que tinha exatamente o mesmo cheiro. Nunca me esqueci do cheiro, pois foi o mais perto que cheguei de dar o meu primeiro beijo antes, é claro, de dar o meu primeiro beijo alguns anos depois.

Depois disso eu me empolguei e comecei a sentir cheiro até de coisas que não estavam ali. O cheiro da chuva, antes de chover (tem gente que acha que isso não existe, mas existe), o cheiro misturado do centro da cidade, o cheiro do almoço árabe da vó ficando pronto, o cheiro do pescoço azedo dos meus dois filhos quando eram recém-nascidos, o cheiro do cabelo da minha esposa quando dançávamos nossa valsa no dia do casamento, o cheiro de várias coisas estavam lá. Como uma retrospectiva olfativa da minha vida até aqui.

Fiquei imaginando um cara bom de nariz, como os enólogos mais proeminentes, ou os perfumistas de primeira linha. Não deve ser fácil a vida desse povo. Se cada odor disparar neles uma lembrança, boa ou ruim, como é que conseguem se concentrar na vida de agora? Se existir paralisia por nostalgia, esses caras devem ser os primeiros da fila.


Um dos meus livros favoritos chama-se O Perfume, de Patrick Suskind, onde o personagem principal se torna um assassino na tentativa de captar e manter para sempre os perfumes que sente da vida. Um exagero dramático do autor, é claro, mas dá para entender de onde ele tirou a ideia para a história. Basta uma volta de táxi pela cidade.

segunda-feira, julho 15, 2013

Quero me mudar para Guamiranga


Um dos meus planos de coisas a fazer antes de morrer é clichê para homens se aproximando da crise da meia idade. Quero muito, veja só, alugar uma Harley Davidson e percorrer a gloriosa Route 66, de ponta a ponta. Eu sei, patético, mas o que posso fazer? Quero muito esse negócio e, se tudo correr bem, quando os guris estiverem independentes, vou levar minha pequena comigo e vamos encarar o desafio.

Por enquanto, tenho que me contentar com menos. Minha experiência com road trips teve que, digamos, encolher um pouco. Há algumas semanas, fui convocado para dar aula em Toledo, no oeste do Paraná. Por um problema no aeroporto de Cascavel, tive que encarar a viagem de carro. Transformei o limão numa limonada, como dizem. Como a aula era na sexta à noite e no Sábado de manhã, fui de Curitiba para Ponta Grossa na noite de quinta com a família, dormi por lá, acordei muito cedo na sexta, troquei de carro com meu pai (o carro do velho é fantástico para viagens longas) e parti.

De Ponta Grossa a Cascavel, onde eu pararia para almoçar com meus tios e primos, tem pouco mais de 400Km, o que já garante uma distância merecedora do título road trip. A primeira coisa que fiz ao sair foi parar num posto de gasolina e comprar uma garrafa de água, um sortimento de Halls, Mentos e afins e uma carteira de Marlboro Lights. É meu amigo, eu estava disposto a chutar o balde. Sozinho na estrada, sem família, sem horário (mais ou menos) e sem compromissos (até a hora da aula). Fumei um cigarro, subi no carro e saí fritando os pneus. Eu ainda não tinha me acostumado direito a arrancar com o carro do velho.

O dia estava incrivelmente ensolarado, o que fez com que eu perdesse a noção do tempo e do espaço. Por detrás dos meus óculos escuros eu não enxergava nada que não fosse o asfalto se encontrando com o horizonte. E as placas de transito, é claro, que eu sou meio CDF quando estou dirigindo. Quando me dei conta já estava quase fazendo xixi nas calças e me apressei em parar no primeiro posto de gasolina que apareceu. Estava em Guamiranga, segundo a moça do posto, apontando o portal do outro lado da estrada, escrito "Bem vindo a Guamiranga". 15.000 habitantes segundo a moça, achei demais. O sossego, o silêncio, o verde. Quero me mudar para Guamiranga. Depois desisti, mas eu queria mesmo, juro.

Como eu vi que a viagem ia render, e ainda era cedo prá caramba, decidi ficar ali por mais um tempo. Estava lutando para terminar um livro fantástico que eu estava lendo e nunca tinha tempo de terminar, então estacionei o carro de frente para o infinito verde que domina o interior do estado, deitei no capô do carro, acendi um cigarro e depois outro, e assim foi até que terminei o livro. Garota Exemplar. Livraço. Voltei para a estrada.

Todo o resto da estrada não foi tão bacana quanto estes primeiros cento e tantos quilômetros. Cansa esse negócio. Mas como o movimento era baixo e o tempo bom, logo cheguei a Cascavel. Era meio-dia e o primo já estava me esperando. Fomos até o restaurante árabe onde o tio e a tia estavam nos esperando. Puta almoço árabe. Depois fomos para a casa do tio tomar um café, adivinhe, árabe. Depois fomos ao escritório dele, e daí o primo foi me mostrar a obra da casa dele e acabou a etapa Cascavel. Tinha que partir para Toledo para dar minha aula.

Aula dada à noite, terminada na manhã seguinte, hora de voltar. A esta altura já estava morrendo de saudades da Tati e dos pequenos. Então resolvi não almoçar e tocar direto. Programei o GPS para encontrar a saída de Toledo para Cascavel. Aquela merda me conduziu para uns buracos que eu tinha certeza que nunca mais conseguiria me achar. De repente, sem enfrentar nenhum trânsito, nenhum farol ou lombada, eu estava no meio da estrada. Perfeito, meu GPS escreve certo por linhas tortas.


Fiz a viagem de volta inteira parando apenas uma vez, contra umas cinco na ida. Desta vez sem cigarros, sem finais surpreendentes de livros excelentes e, mais grave, sem Guamiranga. Estava louco para chegar em casa e ver meu povo. Road trip é o cacete. Vou esperar os piás crescerem um pouco e vamos para a Disney. Chega de clichê.

sexta-feira, junho 21, 2013

E daí se fosse apenas pelos 20 centavos?

O Jabor foi extremamente infeliz em seu comentário precoce sobre a onda de protestos que estamos vivendo. Mas o Jabor é um infeliz por natureza. Seus comentários são baseados em inveja, como foi quando comentou o Oscar pela Rede Globo anos atrás, mostrando todo o seu recalque de cineasta fajuto e sem relevância. Ninguém tem que dar bola para o Jabor.

A questão é, por que temos vergonha de lutar por apenas 20 centavos? Qual é o problema? Se estiver errado, está errado. Ponto. Temos que reclamar. Vão me chamar de louco, de tapado, de míope, mas é melhor uma luta focada, pragmática, com alvo bem definido, como o aumento de 20 centavos, do que gritaria sem foco. Esse é o momento de termos visão de raio laser, para irmos derrubando cada um dos pontos que assolam nossa população. São vários, mas mirar direitinho em um por um é melhor do que atirar para o céu contra todos.

Não me entenda errado, atirar para o céu, ou gritar sem um foco bem definido, é melhor do que nada. E só por isso esses protestos que temos visto (ao vivo ou mal televisionados) já estão valendo muito. Mas se tivermos a inteligência coletiva de aproveitar melhor este momento, poderemos de verdade dar mais uma virada positiva na nossa história. Não somos famosos por nossa inteligência coletiva, e isso me desanima um pouco, mas a esperança é maior do que o desanimo. Sempre.

Ontem no blog da escolinha do meu filho menor (1 ano e dois meses) postaram uma foto da turminha dele com bandeiras do Brasil e um vídeo dos pequenos fazendo sua parte. Eles não sabem ainda, mas vão colher os frutos disto quando começarem a pagar impostos. Tudo bem que o meu pequeno estava mais preocupado em arrancar o palito de churrasquinho que sustentava a bandeirinha dele (e acabou conseguindo), mas começa assim.

Só sei que está bonito de ver. Colegas saindo do trabalho para ir para as ruas, gente debatendo assuntos que normalmente são deixados de lado. Muita gente já falando em como temos que votar direito nas próximas eleições. Teorias, conjecturas, propostas. Tem até ideias atribuídas ao Jô Soares, que provavelmente não são dele. (Talvez sejam do Jabor).


Enfim, fica a minha pergunta. E daí se fosse apenas pelos 20 centavos? Qual o problema? Consideremos os 20 centavos como um ensaio, um aquecimento. Uma tentativa até agora bem sucedida de exercitar músculos que temos, mas não lembrávamos que tínhamos.

Com foco, em paz e sempre. Só assim a coisa vai funcionar para nossos pequenos.

quarta-feira, agosto 29, 2012

Humildade do ar


Meu filho me perguntou o que era a humildade do ar. Estávamos com a TV ligada e ele deve ter ouvido algo na previsão do tempo do jornal. Eu tinha duas opções. Interpretar a pergunta como um pequeno deslize gramatical e corrigi-lo, ou entender que meu filho, que ainda não tem quatro anos, é um gênio da filosofia, que já está dando seus primeiros passos rumo ao entendimento definitivo do universo. Para mim fez muito mais sentido a segunda opção, e disparei:

- Veja filho, não é tão simples assim. Tem muito que ver com o fato do ar não escolher, não ter critério nem pré-julgamentos. Ele é de todos. Está aí para todos. E o mais importante, não aparece, não cobra nada de ninguém, não quer ou exige nenhum tipo de reconhecimento. Está entendendo filho? E mesmo assim, ou talvez até por isso mesmo, o ser humano faz mau uso dele. Estraga o ar. Polui. Humilha mesmo, sabe como?

Quando olhei para o lado, meu pequeno estava vidrado no vídeo da Galinha Pintadinha, sabe-se lá há quanto tempo. Estava passando a música “Atirei o Pau no Gato”. Fantástico esse meu piá, pensei. Já está elaborando algo sobre o direito dos animais.

domingo, julho 29, 2012

Vai ser do Peru


Se o mundo acabar mesmo no dia 21 de Dezembro deste ano, como os Maias supostamente previram, todas as preocupações que eu tive até hoje não terão servido para nada. Pense no desperdício. Terão sido horas, dias, anos de preocupação à toa.

O mundo não pode acabar em Dezembro. De jeito nenhum. Investi tanto tempo da minha vida me preocupando com alguma coisa para dar em nada? Não. Seria a maior das sacanagens do destino. Uma vida de preocupações sem sentido.

Não que eu não me preocupe de vez em quando com o fim do mundo em si, mas essa preocupação sempre foi mais tipo um hobbie. Tudo bem, não foi um hobbie, na época da guerra fria eu me pelava de medo. Sem trocadilho.

Mas o fato é que, se o mundo acabar mesmo, terei perdido realmente muito tempo. Então eu decidi não me preocupar mais, com porra nenhuma. Chega. Resolvi viver a vida, chutar o balde. Carpe Diem! Pelo menos até o dia 21 de Dezembro. Depois eu vejo o que eu faço.

Você vai pensar que é a crise da meia idade. Não é. Pode chamar de crise do fim do mundo, que no meu caso coincidirá com a meia idade. Pura coincidência.

De qualquer maneira, vou radicalizar. Mas o que tem me preocupado mesmo, o que tem tirado meu sono, é como vou me acertar com o pessoal lá em casa se passarmos do dia 21 de Dezembro. Vai ser do peru. Sem trocadilho.

sexta-feira, junho 08, 2012

Uma espécie de justificativa


Temos um novo pequeno em casa, agora com quase dois meses. Pequeno mesmo. Quando o primeiro veio, eu tinha tempo para muita coisa. Narrei a gravidez, a chegada e os primeiros meses com certa abundância. Se um dia o segundo levar isso em conta para medir e comparar nosso amor por ele em relação ao primeiro, ferrou tudo. Filhos adoram comparar a quantidade de amor dos pais em relação aos irmãos. Eu sei, sou filho e tenho dois irmãos. A questão é que essa comparação não é justa nunca, muito menos neste caso, pois tudo mudou desde que o primeiro chegou, e tempo para escrever foi um dos (se não o) mais afetado em todo esse processo. De qualquer forma, assim como meus pais sempre falaram (e eu sempre desconfiei), e os seus também devem ter falado (e você deve desconfiar), meu amor pelos dois pequenos é infinito. E infinito é sempre igual.

Quando engravidamos do segundo, o nível de ansiedade estava alto, pois tínhamos perdido um neném bem no inicio da gravidez, meses antes. Tinha muita expectativa na sala de espera para o primeiro ultrassom. Sabíamos que tínhamos perdido a inocência na primeira gravidez. Quando escutei aquele coraçãozinho batendo, quase o meu parou. Chegando em casa, escrevi o texto abaixo. Um texto de alívio, sim, mas principalmente de amor. Infinito. Igualzinho ao que sinto pelo primeiro. Nossos pais têm razão.

“No fim tudo se resume a um batimento de coração absurdamente rápido. 173 batidas por minuto o Dr. falou. Normal para a idade gestacional, o Dr. falou. Bom, se o Dr. falou está falado. Depois de tanto tempo, tanta espera, tanta ansiedade, tudo o que queria era ouvir aquele coraçãozinho batendo. Se ele tem dois centímetros, de ponta a ponta, imagine o tamanho do coração. Mas já está batendo. E rápido, que ele tem pressa. Todo mundo tem pressa hoje em dia, mesmo os que têm apenas dois centímetros. De ponta a ponta. Depois ele vai crescer, e vai querer sair porque a casa ficou pequena, e vai crescer mais e, anos depois, vai querer sair de novo, pois a casa ficará pequena para todos nós, e vai para uma casa menor, mas gigante para ele, e não se lembrará da primeira casa, quando seu coração batia a 173 por minuto. Mas sempre que voltar, de saudades, de fome ou de coração partido, deitará no peito da mãe dele e escutará o coração dela, que naquele dia lá atrás, quando o dele batia a 173 por minuto, quase parou quando o Dr. projetou na parede a imagem daqueles dois centímetros de histórias por vir.”

segunda-feira, abril 16, 2012

Merda


- Merda.

- Que foi?

- Como assim o que foi?

- Merda, o que? O que houve?

- Nada ué.

- Então por que falou merda?

- Você sabe. Para dar sorte. É como os artistas falam antes de entrar no palco.

- Deixa de ser ridículo. Em primeiro lugar, nós não somos artistas, em segundo, acho que só os de teatro falam isso. Não somos artistas, muito menos de teatro.

- Como não somos artistas? E nossa música é o que?

- Música? Você chama isso de música? Você escreveu estas letras idiotas, colocou três acordes em cima e inventou essa história de dupla caipira. Sinceramente, sei não.

- Poxa mano, isso é hora de duvidar do negócio? Estamos prestes a entrar no palco. E não é caipira, é sertanejo universitário.

- Que palco? Aquele cantinho ali que deixaram para nós? E além do mais, tem três pessoas no bar, e tenho certeza que eles não fazem a menor questão de ouvir nossa “música”.

- Não fala assim mano. Machuca.

- Para de frescura. Sabe do que, não sei onde eu estava com a cabeça quando topei essa maluquice, viu? To fora. Tchau.

- Merda.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Se não fosse aquela azeitona


Eram 35 no começo e saíram juntos. O caminho não era longo, mas difícil. Ainda mais difícil era sincronizar os 35, que pareciam mil. Cada um era de um jeito, de uma idade e com diferentes vontades. Cada um.

Não tinham guia, nem mapa. Nem bússola ou lanterna. Só a roupa do corpo e a certeza de que aquela era a direção correta, sem saber por que. E assim foram seguindo.

Lá pelas tantas, quando já eram menos de 20, um dos que sobrou perguntou:

- Alguém já comeu o enfeite da salada?

- Que tipo de pergunta idiota é essa? – perguntou outro.

- É que foi assim que eu morri. – respondeu – Engasguei com o caroço da azeitona e não tinha ninguém para fazer a manobra de Heimlich.

- Manobra de quem? Que manobra é es.... Peraí, morreu? Que papo é esse?

- Sim, não estamos aqui? Como foi com você?

Um silêncio mortal tomou conta da caravana. Só ele tinha se tocado do que houvera e agora, de um golpe só, todos sabiam. Ficaram horas parados, tentando entender, contando suas histórias e recuperando o fôlego. Estavam debatendo se voltavam ou não procurar os outros 15 que tinham ficado para trás. Quando decidiram voltar, um que ainda não tinha se manifestado falou:

- Voltar? Agora? Vamos perder muito tempo.

Todos olharam para ele, rindo. Ainda não tinha entendido bem o negócio.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Plaquinha Vermelha


O Josimar é um sujeito patologicamente bem educado. Só para citar um exemplo dos problemas práticos que o excesso de educação traziam para o Josimar, ele não conseguia, em hipótese alguma, ir a um churrascaria de rodízio.

Com aquela loucura de espetos e bandejas, Josimar tinha que dizer “não obrigado” sempre que quisesse dispensar algum pedaço de boi que estivessem servindo, ou “sim, por favor” quando aceitasse. O problema é que sua doença não permitia que ele falasse de boca cheia e o negócio travava. Chegou a um ponto em que ele inventava desculpas do tipo “já almocei” ou “hoje estou meio sem fome” para não passar vergonha.

Já estava sem esperanças quando um primo, mais do que letrado em rodízios, deu uma sugestão. Bastava que ele, assim que aceitasse a primeira fatia de picanha, virasse a plaquinha para o lado vermelho. Quando terminasse de comer, com toda a calma e etiqueta típicas do Josimar, virava novamente no verde, e assim sua vida estava salva da iminente falta de proteínas animais.

E lá foi o Josimar. Escolheu a roupa a dedo, tomou um banho demorado e foi para a melhor churrascaria da cidade testar a nova técnica. Estava indo tudo bem. Já tinha passado pelo coração de galinha, pelo faisão (que ele sempre desconfiou ser um golpe), pela primeira rodada de picanha e pelo carneiro. Estava quase no ápice, quando aconteceu.

Assim que terminou o carneiro, com um delicioso molho de hortelã, virou a plaquinha para verde. “Podem vir”, pensou quase em voz alta. Recebeu um generoso pedaço de costela e virou a plaquinha novamente. Encarou a presa, cortou um pedaço quase sem a faca, de tão macio, e encheu a boca. Foi nesse momento que um distraído garçom ofereceu linguiça para o Josimar. Com a boca ainda cheia de costela ele começou a gritar (e cuspir), “puta que pariu, não tá vendo a plaquinha no vermelho?” A esta altura ele estava mais vermelho que a plaquinha e o restaurante inteiro olhava para ele. “Você é burro ou quê? Não dão treinamento nesse lugar?” E continuava gritando e cuspindo, vermelho. Quando se deu conta do descontrole inédito, tentando recuperar a educação, que era sua marca registrada, disse, “Mas com todo o respeito, é claro”.

Quando anunciou para os amigos e parentes que decidira tornar-se vegetariano, todo mundo achou uma excelente ideia.

sábado, outubro 15, 2011

O Vírus


Ela tem um rosto fronteiriço. Daqueles que você só sabe se é bonito ou feio quando ela abre a boca. A maioria das pessoas são bonitas ou feias, ponto. Você pode até mudar de idéia quando conhece melhor, mas já classifica de cara. Porém, algumas raras pessoas ficam ali, bem no meio, e você só desempata quando ela começa a falar. E ela começou a falar. E ela é linda de morrer. E foi aí que eu dancei.

Foi como um vírus incubado. Por semanas eu não me lembrei dela, mas aos poucos comecei a sentir que algo me incomodava. Seu rosto aparecia na minha imaginação e eu achava graça. Depois comecei a me preocupar com a frequência e, finalmente, veio a febre. Eu tinha que fazer alguma coisa, urgente. O nó é que pra vírus não tem remédio, tem que esperar o ciclo passar, mas eu precisava pelo menos de um antitérmico.

Comprei uma passagem de ônibus. Naqueles tempos, quando aeroporto ainda não parecia rodoviária, só gente rica viajava de avião. Arrumei minha mala com todos os argumentos que eu tinha e embarquei para a viagem de seis horas de estrada ruim que nos separava.

Fui ao mesmo bar que nos conhecemos, e ela estava lá. Deu pra ver da rua pelo amplo vidro que separa os bebuns do bar dos da rua. Ela também me viu e abriu um largo sorriso. Fiquei imaginando se ela também estava sofrendo do meu mal. Ficamos alguns minutos nos olhando de longe, ela com sua turma dentro do bar, eu sozinho do outro lado da rua. O trânsito estava surpreendentemente grande naquele fim de mundo, ainda mais considerando a hora avançada. Continuávamos nos olhando de longe. Depois que um ônibus passou lentamente entre nós, ela nunca mais me viu. Me arrependi muito de não ter comprado passagens de avião.

domingo, julho 31, 2011

Malditas fotografias


Tenho uma coleção de fotografias. Bom, todo mundo tem uma coleção de fotografias, mas não como a minha. Não é uma coleção enorme, não tem bizarrices, não é de Polaroid, é apenas uma coleção de fotografias, mas é única. Mesmo quando a coleção entrou na era digital, continuei mandando imprimir. Tenho exatamente vinte mil setecentas e cinqüenta e duas fotografias, uma para cada dia, desde o dia em que fiz dezoito anos. Eu achava que estava ficando velho quando fiz dezoito anos. Isso me assusta agora que estou realmente ficando velho. Nunca mostrei minha coleção para ninguém, e nunca vou mostrar. Isso é uma das coisas que faz da minha coleção única. Eu também não vejo as fotografias depois que as guardo. A foto de amanhã já planejei, a de hoje já fiz, a de ontem revelei e as da semana passada já esqueci. São todas iguais, o que muda é o tempo. São todas diferentes. Ao contrário de Dorian Gray, envelheço junto com os retratos, ou até mais do que eles, porque eles só registram o envelhecimento do meu corpo, quando o pior é o das minhas idéias. No fim, tal qual o personagem de Oscar Wilde, só saberão quem sou pelos anéis. E na parede não encontrarão um quadro, comigo no auge da juventude. Encontrarão uma caixa enorme de velhas fotografias, com um registro preciso, lento e acachapante da chegada da velhice. Ou pior, do caminho até ela. Por favor, não me entenda mal, não estou reclamando do caminho, na verdade ele tem sido muito bom. O que me inferniza é eu ter achado que era velho cedo demais. Agora, aos setenta e quatro (caso você não tenha feito as contas), não tenho mais coragem de parar com as fotografias.

quarta-feira, junho 29, 2011

Sapo


Toda vez que eu chego em casa do trabalho, meu pequeno me olha e diz, “Sapo”. No começo fiquei grilado. Tudo bem que sou feio e ganhei um pouco de peso ultimamente, mas eu não sou verde porra. Além disso, tenta colocar esse nariz num sapo para ver se o desgraçado consegue se equilibrar. Mas está tudo certo, na verdade o que ele quer é o vídeo do sapo que não lava o pé (aquele mesmo do nosso tempo de infância) que começa a tocar no meu ipad toda vez que o pequeno o liga.

É isso, meu ipad não me pertence mais. Foi bom enquanto durou. Agora ele é apenas uma plataforma avançada de entretenimento infantil. Sempre alternando entre o sapo, o Doki, a Galinha Pintadinha e um povo esquisito contando até 10 em francês.

Deixe-me esclarecer bem a situação. Minha TV já é dele desde o dia 1. Minha cama também. Minha esposa nem se fala. O chão da sala, o sofá da sala, a sala. Tudo dele. Sem problema algum, filho é filho, mas o ipad era meu, katzo. Eu comprei com o meu dinheiro, eu vi primeiro e eu vou chamar a minha mãe. Mas peraí, minha mãe é avó dele. Se eu chamar ela, piora. Não tenho a quem recorrer.

Você acha que estou escrevendo este texto no ipad? Claro que não. Sabe por que? Porque o ipad está carregando. Sabe por que? Porque meu pequeno acabou com a bateria vendo o vídeo do sapo. Agora que ele foi dormir, tenho que carregar o brinquedo dele para amanhã. Percebeu? “O brinquedo dele”. Mas tudo bem, filho é filho. Eu nem queria o ipad mesmo. Droga.