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Peixoto

Acordou muito cedo, mais que o de costume, tomou os remédios, deu comida para o peixe, catou o casaco, a mochila com o notebook, desligou o alarme e foi.
No caminho, escutando Pinkerton, do Weezer, perguntou-se porque tem o peixe. Quase não olha para ele, fica meio escondido na cozinha, como se estivesse sempre na iminência de virar um petisco para acompanhar seu single malt noturno diário, não serve para nada. Mas ele gosta do peixe, que na falta de um nome melhor chamou Peixoto. Mais para Caubi do que para o Marechal, Peixoto é um beta exibido, colorido e inútil. Pensaria depois o que fazer com o peixe, sendo a opção mais provável não fazer nada.
Uns 40 quilômetros já avançados no caminho da Universidade deu-se conta de que não sabia o que ia falar na aula. Isso acontecia todos os dias e, como morava no interior de lugar algum, 120 quilômetros longe da sala de aula onde passava seus dias, sempre tinha tempo de preparar mentalmente o esqueleto da aula, que desenvolveria de improviso…
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Um baita livro

Eu estava no meio da leitura de um baita livro. E vou te falar, quase nada é tão importante quanto estar no meio da leitura de um baita livro, mas as pessoas parecem não compartilhar dessa ideia. Especialmente os dois casais que estavam na mesa de jantar da minha casa, e minha esposa que estava com eles, todos me esperando para começar enquanto eu estava trancado há meia hora no banheiro, sem conseguir largar o livro. Na verdade, não tinha nem me dado conta de que trinta minutos já tinham se passado, quando ouvi o grito mais assustadoramente desesperado que ouvi na minha vida, e não era da minha esposa.
Saí correndo do banheiro, desci as escadas quase sem sentir os degraus debaixo de meus pés descalços e cheguei à sala de jantar. A mesa estava posta, os pratos servidos e intocados, as taças com vinho pela metade sem nenhuma marca de batom das mulheres, a música tocando no meu toca-discos de vinil, as janelas abertas com a lua cheia entrando sem se importar com a cena, e ninguém por a…

Merecidos anos novos

Se tem uma grande coisa sobre este ano de 2016, é que ele não passou suave. Pelo visto para quase ninguém. Ele deixou marcas, algumas profundas. Não é disso que sempre reclamamos? Que nada acontece, que o tempo voa, que a rotina nos engole? Não teve rotina em 2016, a não ser a da reclamação.
Claro que foi um ano duro, não dá para dourar a pílula. Nem se deve. Perdi incontáveis noites de sono em 2016. A situação da política, da economia, da segurança, acordamos sem saber se vamos dormir empregados, ou com nossas empresas ainda operando, o nível de incerteza foi absurdamente mais alto do que o brasileiro entende como normal e confortável. Esse ano foi tudo, menos confortável.
Mas que ano foi esse! Talvez o único que lembrarei para sempre desta década. O mais importante aconteceu, e não acontecia há algum tempo. Eu aprendi como nunca. Comentei com alguns colegas e familiares que fazia anos que eu não aprendia tanto, e é verdade. Em 2015 uma grande empresa familiar de moda em Santa Catar…

Tony

Meus filhos, e todas as crianças que conheci até hoje, adoram brincar de esconde-esconde. Eu me divirto demais quando eles são bem pequenos ainda, e não têm um pingo de malandragem. Escondem-se nos lugares mais óbvios, e acreditam do fundo do coração, como se fossem invisíveis, que ninguém os está vendo. E ainda ficam dando aquela risadinha, bem baixinha, como se estivessem fazendo todos de trouxas.
É assim que eu sempre ouvi as músicas do No User for a Name, banda de hardcore melódico do gênio, Tony Sly. O primeiro disco dos caras que eu conheci foi o clássico “Leche com Carne”, gravado para mim em fita K7 por um dos irmãos da cena harcore curitibana. Pouco tempo depois, em uma viagem à França com minha querida mãe, comprei o “Making Friends”, que havia sido lançado naquela semana, para mim o melhor disco de HC da história e provavelmente o CD que eu mais escutei até hoje. Só no discman que levei naquela viagem, devo ter escutado umas 30 vezes em uma semana.
E que porra uma banda de…

Oriental

Sabe quando você está distraído, sem fazer nada, e fica olhando, sei lá, para o azulejo da cozinha, ou o piso da churrasqueira e assim, do nada, identifica uma forma conhecida. O rosto de alguém, um dragão ou a Luma na Playboy de 2001? Você fixa o olhar para não perder aquilo, vai abrindo o ângulo para tentar geolocalizar a figura e depois poder mostrar para alguém (centro do canto superior esquerdo do terceiro azulejo da segunda fila de cima para baixo) e, mesmo assim, quando olha novamente ela não está lá? Então, é mais ou menos assim a história que eu quero contar. Eu via ela claramente, fiquei pensando nela sem parar e fui guardando elementos, para depois poder colocar no papel, e agora que quero contar, ela meio que sumiu. Claro, não era uma Luma, estava mais para o dragão, mas parecia boa.
Começava com um personagem normalzão tendo algum tipo de problema existencial leve, algo como pedir uma pizza de quatro queijos (sabendo que ali no máximo tem uns três, sendo que um deles é c…

Silêncio

Dois mil e quinze foi o ano dos meus quarenta anos. Não deve ser isso, mas coincidentemente foi nesse ano que me dei conta de um negócio. E é um negócio importante. Precisamos de mais silêncio, urgente!
Oscar Wilde, no brilhante texto de O retrato de Dorian Gray, em uma passagem na qual o personagem principal não conseguia parar de falar e se exibir, cometeu a pérola “Como todas as pessoas que tentam esgotar um assunto, ele esgotava os seus ouvintes”.
Estamos numa época em que os jantares sociais, pomposos, barulhentos e perigosos foram substituídos pelas redes sociais, com exatamente as mesmas características. Não tem o jantar, mas tem as fotos dos jantares. Não tem a bebida, mas tem as fotos e os comentários sobre as bebidas. Os exibidos e insuportáveis não se encontram ao vivo, mas são igualmente exibidos e insuportáveis.
Esse ano foi especialmente desafiador para qualquer um que insista em permanecer online. Aconteceu muita coisa ruim no mundo, especialmente no Brasil, e todo mun…

Um presente para o futuro

Certa feita estava assistindo a uma palestra do economista Eduardo Giannetti, grande autor de livros que versam sobre temas dos mais variados, como o genial “Auto-Engano”, sobre nossa capacidade de mentir para nós mesmos para tornar nossa vida mais fácil, e potencialmente menos produtiva. Na palestra, que não tinha nada que ver com o livro citado (só o fiz porque realmente gosto da obra), ele soltou uma frase um tanto óbvia, mas tão precisa quanto um matemático russo, sobre o povo brasileiro, que nunca mais esqueci. Nada nos define tão bem como a frase “não estamos dispostos a sacrificar um milímetro do nosso presente em benefício de um futuro melhor”. Está aí, o povo brasileiro em uma frase.
Brasileiro em geral não joga xadrez. Não porque é menos inteligente que outros povos, ou qualquer coisa que pensem por aí, mas jogar xadrez significa pensar pelo menos duas jogadas a frente, e nós estamos apenas preocupados em comer o peão que está diante de nós. Ou a peoa, para não pensarem bob…