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Chuveiros

É difícil sair da sala sem acordar o cachorro. Ele fica com a cabeça no chão, cobertorzinho na boca, fingindo acompanhar meu sono, mas ao menor movimento, levanta e quer brincar. Agora penso naquela história de que cachorro se apega aos donos e não à casa. Pelo menos neste quesito ninguém pode me chamar de cachorro. Desde pequeno tenho a característica de me apegar exageradamente aos locais onde resido. Depois de morar os primeiros nove anos da minha vida em um apartamento com meus pais e irmãos, os velhos resolveram que o lugar estava pequeno. Era um apartamento no décimo andar de um edifício que leva o nome da minha avó, e não por coincidência. O terreno era de meu avô, e o nome do edifício, as lojas do andar térreo e mais três apartamentos foram o preço que meu avô cobrou dos construtores. Um dos apartamentos ficou para meus pais. Meses antes de mudarmos para o novo apartamento, que ainda estava em construção, os novos donos do nosso exigiam a entrega. Um de meus tios tinha ficado c...

Volta antecipada

Pois é, voltei! Não deu para ficar tanto tempo longe quanto eu planejava, mesmo por que a pinta das costas era só uma sujeira antiga que encracou. Uma esponja nova resolveu o assunto. Já me acostumei com o travesseiro novo e as meias já estão acostumadas com os meus pés. Além do mais, sei que vocês não aguentam mais de saudades das minhas bobagens. Espero que os três tenham se comportado. O que? Só dois? Como assim desistiu? Bom, falando em mudanças, tenho um texto sobre chuveiros. Abraço a todos.

Já volto ...

Amigos leitores, devido a uma série de mudanças radicais em minha vida (travesseiro novo, mudança no enxoval de meias e uma pinta nova que apareceu aqui atrás do ombro) vou dar um tempo nos meus escritos. Prometo que volto logo, daqui a umas quatro ou cinco semanas. Enquanto isso eu sugiro algumas coisas, como largar o mouse e sair para ver o sol, comer um sanduíche de pernil da mineira, falar mal do Lula ou até mesmo ler outras coisas mais interessantes. Mas não esqueçam de mim, pois espero sinceramente encontrá-los por aqui quando voltar. Todos os três, por favor! Abraços

Crochê e Dominó

Doutor Bragança acordou cedo naquele dia. Tinha desses nomes Imperiais afetados, mas era pessoa simples e de boa lida. Era simples até para acordar. Sem estardalhaço rolava para o lado da cama, calçava seus chinelos de couro velho e ia fazer o primeiro xixi do dia. Fazia muitos, coisa da idade que andava beirando os oitenta. Conheceu Dona Genalva quando já não tinham mais os dentes próprios, no banco da praça. Ele jogava dominó na mesinha com seu companheiro de todos os dias, o Seu Armindo, enquanto ela mexia agitada as agulhinhas de crochê. Fazia muito tempo que estavam de flerte, parece que uns três ou quatro dias (muito tempo nessa idade é contado em dias), quando o distinto Doutor Brangança finalmente tomou coragem, caminhou lentamente até o banco onde estava a Dona Genalva, pediu licença para sentar-se a seu lado e iniciou um longo papo, que durou mais de ano. Casaram-se logo, pois não tinham tempo a perder. Iam todos os dias à praça e, quando ele cansava de jogar, gritava para ...

Canecas

Em casa, Marco e Lili não têm condições de receber mais do que meia dúzia de pessoas para um jantar, faltam talheres, pratos e, principalmente, lugares à mesa. Entretanto, se um número absurdamente grande de amigos e parentes resolverem aparecer ao mesmo tempo para tomar um boa caneca de café, as têm para todos. Já improvisaram um pendurador de metal para elas, mas tanto este quanto os armários continuam enchendo. Eles têm de todos os tipos, a saber, das de viagens, das com mensagens de amor, das engraçadinhas, das de propaganda; têm até uma na qual se pode escrever recadinhos com uma caneta especial. Elas não param de chegar, é como se fossem programadas para acabar na casa do casal. Marco às vezes desconfia que no silêncio da noite, com insônia causada pela cafeína, elas se reproduzam. Safadas estas canecas. Marco e Lili têm problemas também quando alguém viaja. Como já criaram a fama de colecionadores, a cada vez que um conhecido escapa de férias ou a trabalho, uma ou mais os são da...

O preço da liberdade

Era em torno de quatro da tarde, o sol estava com tudo e o clube cheio. Em um dos cantos da grande propriedade havia um descampado enorme no pé de um declive do terreno, não tão alto, nem tão baixo. Foi ao longo deste declive gramado que as pessoas estavam acomodando-se para assistir à corrida de cavalos organizada pelo clube, com o muito criativo nome de Horse Cross. Aliás, tema de uma próxima história devera ser a capacidade que o povo da minha cidade têm de inventar nomes criativos para as coisas, como a locadora de vídeos que se chama AtreVídeo. Que tal hein? Entendeu? Voltando, a competição se daria justamente no terreno descampado, com alguns obstáculos para dar mais emoção e testar a habilidade dos cavaleiros da cidade, que mais tarde provou-se das menores. Para ser honesto, não lembro de muita coisa, não porque minha memória não me ajuda, mas porque eu não estava dando a menor importância para o evento. Ficar sentado na grama, debaixo do sol, vendo um bando de rapazes da "...

Seu Dudu e Seu Cominho

Seu Dudu e Seu Cominho foram figuras que fizeram parte da minha infância, e da minha adolescência em parte. Um era do dia, outro da noite. Ambos capitaneavam, em seus respectivos turnos, a portaria do Edifício Paraíso, onde passei todos os Janeiros ou Fevereiros daquele período, dependendo da escala familiar para utilização do apartamento da praia. Seu Dudu andava arrastando a perna, que tinha uma ferida sempre grande e exposta, como se fosse uma vítima de guerra. Diziam que era uma queimadura grave, sofrida em um acidente de trabalho, mas ninguém tinha certeza. Sempre que ligavam para a portaria ele saudava com fala ensaiada e, por todos os anos que consigo me lembrar, idêntica. Seu Cominho era menos formal, tinha cara de desconfiado e um sorrisinho malicioso de canto de boca. Parecia gostar de todos nós pirralhos, mas dava a impressão que estava sempre a ponto de perder a paciência. De qualquer forma, nossa turma era grande o suficiente para deixarmos os porteiros em paz. Aliás, port...