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O preço da liberdade

Era em torno de quatro da tarde, o sol estava com tudo e o clube cheio. Em um dos cantos da grande propriedade havia um descampado enorme no pé de um declive do terreno, não tão alto, nem tão baixo. Foi ao longo deste declive gramado que as pessoas estavam acomodando-se para assistir à corrida de cavalos organizada pelo clube, com o muito criativo nome de Horse Cross. Aliás, tema de uma próxima história devera ser a capacidade que o povo da minha cidade têm de inventar nomes criativos para as coisas, como a locadora de vídeos que se chama AtreVídeo. Que tal hein? Entendeu? Voltando, a competição se daria justamente no terreno descampado, com alguns obstáculos para dar mais emoção e testar a habilidade dos cavaleiros da cidade, que mais tarde provou-se das menores.

Para ser honesto, não lembro de muita coisa, não porque minha memória não me ajuda, mas porque eu não estava dando a menor importância para o evento. Ficar sentado na grama, debaixo do sol, vendo um bando de rapazes da "sociedade" exibindo seus presentes de Natal de quatro patas não era exatamente meu ideal de diversão. Antes esta distração tivesse apenas prejudicado minha memória, coisa muito pior decorreu dela.

Já estavam, os cavaleiros e seus brinquedinhos, no meio da corrida. Minha mãe sentada à minha frente, um pouco abaixo no declive, meu pai um pouco mais para o lado, com uns amigos do trabalho. Ao meu lado direito, duas meninas, um pouco mais velhas do que eu. Com certeza eu não tinha idade para estar distraído com as meninas, então deveria ser com alguma outra coisa, muito provavelmente meus próprios botões. De repente, um dos competidores desviou-se da rota da competição e começou a subir o gramado em direção às meninas, minhas vizinhas da direita. Eu continuava distraído, mas percebi que o povo se agitava. O cavaleiro, no meio do desespero, reconheceu as meninas, que eram suas primas e, em um rompante de habilidade tardia, conseguiu desviar o animal para o lado da minha mãe. Ela, que estava atenta à corrida desde o início assustou-se e baixou o corpo de medo. No mesmo momento em que o cavalo viu minha mãe se abaixando, de susto saltou, e eu, de susto levantei. Péssimo momento para resolver conferir o que estava acontecendo. Foi por muita sorte que o cavalo não me atropelou por completo. A única coisa que aconteceu foi que o quadrúpede bateu um de seus joelhos na minha clavícula esquerda. Joelho de cavalo, clavícula de criança, não preciso detalhar o estrago.

Como a Caravan marrom de meu pai estava estacionada a uma distância proibitiva, ele apelou para um amigo, que tinha seu fusca estacionado ali perto, para me levar até o hospital. Enquanto meu velho me carregava em seus braços, eu conseguia ver minha mãe correndo atrás. Se não me engano ela desmaiou umas duas ou três vezes até chegarmos ao Fuscão que, antes que alguém lembre da música, era branco. O caminho de uns sete quilómetros até o hospital foi rápido, minha única preocupação é se teria que tomar injeções. Só lembro da primeira, que me fez dormir.

Acordei no dia seguinte, com um bruta gesso no braço, que deixava só a mão para fora e cobria boa parte do peito e das costas. Fiquei assim um bom tempo, depois trocaram o gesso por um menor, que só cobria o braço, e por fim me libertaram. Algumas semanas de fisioterapia e eu estaria novo, e o melhor, com uma boa desculpa para não me meterem mais em nenhuma fria que envolvesse grama, sol na cabeça e cavalos mal conduzidos. A liberdade afinal tem seu preço.

Comentários

Anônimo disse…
Apesar de trágico o acontecimento, não pude deixar de rir um pouco...
Adorei!
Anônimo disse…
Só vc para contar uma coisa ruim dessa maneira! Ótimo, como sempre!

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