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Sapo

Toda vez que eu chego em casa do trabalho, meu pequeno me olha e diz, “Sapo”. No começo fiquei grilado. Tudo bem que sou feio e ganhei um pouco de peso ultimamente, mas eu não sou verde porra. Além disso, tenta colocar esse nariz num sapo para ver se o desgraçado consegue se equilibrar. Mas está tudo certo, na verdade o que ele quer é o vídeo do sapo que não lava o pé (aquele mesmo do nosso tempo de infância) que começa a tocar no meu ipad toda vez que o pequeno o liga. É isso, meu ipad não me pertence mais. Foi bom enquanto durou. Agora ele é apenas uma plataforma avançada de entretenimento infantil. Sempre alternando entre o sapo, o Doki, a Galinha Pintadinha e um povo esquisito contando até 10 em francês. Deixe-me esclarecer bem a situação. Minha TV já é dele desde o dia 1. Minha cama também. Minha esposa nem se fala. O chão da sala, o sofá da sala, a sala. Tudo dele. Sem problema algum, filho é filho, mas o ipad era meu, katzo. Eu comprei com o meu dinheiro, eu vi primeiro e eu ...

Tutano

Sempre que uma grande mudança ocorre na minha vida, anuncio por aqui que vou dar um tempo nos meus escritos. Quando mudei de emprego a primeira vez foi assim. Quando o pequeno nasceu foi assim. Quando decidi que não gostava mais de quiabo foi assim também. Grandes mudanças implicam em vácuos criativos para mim. Dois dos meus quatro seguidores sempre reclamam quando faço estes anúncios. Para não criar nenhum mal estar, apesar de ter mudado de emprego recentemente, decidi não fazer o anúncio. O problema é que as ideias continuam não vindo. Foi aí que eu percebi que todas as vezes que disse que ia parar de escrever por um tempo, logo em seguida surgiam vários textos novos. Se for assim, queridos leitores, anuncio que nunca mais vou escrever, na esperança desesperada de que a partir de amanhã comecem a pipocar histórias nesta pobre cabeça sem ideias. Como diz o meu pequeno, colocando o dedo na minha testa, “Tutano papai”.

Trilha

Liguei o modo aleatório do aparelhinho, coloquei os fones no ouvido e saí andar pela Lagoa. De cara tocou Creep do Radiohead para me colocar no meu devido lugar. Fui pensando que se eu voltasse para casa teria que encarar a dura realidade dos livros não lidos, da louça não lavada e da noite mal dormida em má companhia. Não voltei. Maldito sol. O que será que houve com a fama de cidade cinza deste lugar?   Não levei meus óculos. Nem sei onde eles estão. Continuei andando enquanto minha trilha sonora ia sendo decidida pelo programa que algum nerd mais desafortunado que eu embutiu no aparelho. Fui longe demais para voltar caminhando, mas não tinha dinheiro sequer para o ônibus. Sentei em uma mesa de bar e pedi um copo de água da torneira. Começou a tocar Johnny Cash. Sorte. Me dei conta de onde estava. Mais algumas quadras e eu estava passando pelo sobradinho muquifento onde ela morava. Bateu uma saudade incontrolável e torci para tocar a nossa música. Não tínhamos uma música noss...

A Caminhada

Antes do pequeno chegar, toda vez que íamos para a praia, minha querida e eu escolhíamos um dia para a caminhada. Na verdade caminhávamos todos os dias, mas um deles era reservado para "a" caminhada. Era uma caminhada definidora. Uma caminhada estratégica. Nela decidíamos o rumo da vida da nossa família, até então composta apenas por nós dois. Foi numa dessas caminhadas que decidimos que nossa família não seria mais composta apenas por nós dois. E o pequeno chegou. Essa foi a decisão mais importante de todas, mas não foi a única tomada em nossas caminhadas na areia. Decidimos por construir uma casa ao invés de mudar de apartamento, decidimos que era hora de eu mudar de trabalho, decidimos viajar para o exterior algumas vezes e assim por diante. Bom, decidimos também ganhar na loteria, mas essa decisão até hoje não deu certo. Nem todas deram. Agora, dois anos e três meses depois da chegada do pequeno, cá estamos novamente. Minha querida dorme ao meu lado enquanto escrevo e a...

Aposta

-           Oi, eu sou o teu anjo da guarda. -           Hum? Como? -           Teu an... Sabe do que? KABUM -           Uow, o que foi isso? -           Para provar de uma vez. Não estou com paciência para ficar te convencendo. -           Como é que você fez isso? -           Já falei, sou teu anjo da guarda. Aliás, já pedi transferência mas o chefe não aceitou. Quer testar os meus limites. -           Como assim transferência? -           De você. Não aguento mais, você dá muito trabalho. -           Que trabalho? Você está louco? Não pratico...

Uma mãe digna de Cannes

Minha primeira viagem à França foi em 1997. Meu pretexto era um congresso mundial em engenharia biomédica, tema do meu mestrado nunca concluído. Minha primeira saída do Brasil. Minha primeira viagem de avião. Como companheira de viagem, com o pretexto de não me deixar cair em nenhuma enrascada, minha mãe. Uma baita companheira de viagem, diga-se de passagem. Enquanto eu encarava as várias palestras dos 3 dias de congresso, dei à minha velha a nobre missão de filmar alguns topless da praia de Nice, a espetacular cidade litorânea da famosa Cote D´Azur. E ela filmou. Vários. Mãe é mãe. Meu filho também tem uma mãe, minha querida Tati. Quando a vejo se desdobrando para agradá-lo, sem um pingo de mau humor, lembro daquela viagem. Quando lembrei essa história, já pai e tendo testemunhado de perto a ralação diária de uma mãe dedicada, liguei para a minha pedindo desculpas. Ela não entendeu nada. Para todas as mães e futuras mães, meu mais profundo respeito e consideração, agora com a propr...

História de fim de dia

O pai chegou em casa cedo naquele dia. O pequeno estava na sala, com alguns amigos que tinham vindo com ele do colégio para brincar de videogame. A mais velha estava no quarto, com alguns amigos que não tinham vindo com ela do colégio, batendo papos virtuais. A mãe estava no banho. O cachorro em todos os lugares. Chovia lá fora. Como as crianças já estavam cansando de matar monstros e fazer curvas impossíveis, o pai resolveu contar uma história. Atividade antiquada essa de contar histórias, com a TV desligada, onde já se viu. Mas não demorou muito para o pequeno e seus pequenos colegas vidrarem seus pequenos olhos no pai, mal respirando. Era sobre um ser que viveu aqui por essas paradas, há muito tempo. Um ser verdadeiramente iluminado. Apesar de não ser humano, era amigo de todos. Cada vez que ele aparecia para uma visita, nem que fosse breve, todos se alegravam. Ele inspirava planos, sonhos, música. Enquanto o pai contava, a filha mais velha se juntou à gangue. Ouviu o silêncio...