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O mundo que você vai ver quando chegar

Meu filho, finalmente nos conhecemos. Você não sabe como foi difícil esperar estas seis semanas. Desde o último exame você cresceu bastante e agora que já sei teu sexo, posso te chamar de meu filho. Antes era só um feijãozinho, um carocinho de nada. O mais lindo que eu já vi, mas difícil de imaginar. Agora te conheci de verdade, te vi abrir a boca e dar saltos no ventre da tua mãe. Tudo reflexo, a doutora falou, mas o que é que ela entende afinal? Reflexo nada, você sabia que eu estava te vendo e já fez a primeira exibição pro teu velho aqui. Abriu as pernocas para não deixar dúvidas, já sabe que o velho é ansioso e não iria me deixar na curiosidade mais um tempo né? Tá bom, eu nem sou tão velho assim, mas você nem nasceu ainda, imagine. Aliás, não vejo a hora de você chegar. As coisas não são tão fáceis assim por aqui, ainda mais comparando com teu lar atual, mas vale a pena, você vai ver. E além do mais eu estou aqui para te ajudar em tudo o que você precisar, mas não abuse viu? Não ...

Knocking on the HEAVEN'S door

Morreu por culpa do cigarro. Foi para cama bêbado com o cigarro aceso entre os dedos e com o colchão em chamas bateu as botas, que no caso eram Nikes pretos. Quando chegou ao céu ainda não tinha se dado conta do que houvera. O porteiro, um anjo iniciante recém promovido, aproveitou para tirar um sarrinho. Afinal, o povo do céu também tem senso de humor. Pegou uma ficha azul improvisada e perguntou: - Nome e telefone, por favor. - João Alceu. 3226-XXXX – preservamos aqui a privacidade de João. - Bem vindo seu João! São 20 reais de consumação – e começou a revistar o recém-tostado. - É sua primeira vez aqui na casa? – continuou o anfitrião. - Hum... Para falar a verdade, nem sei onde estou, nem como vim parar aqui. Estou meio alto, sabe? - Não tem problema, vamos ter que fazer um cadastro rápido – riu sozinho pois o conceito de velocidade no céu fica distorcido com a premissa da eternidade. - Afinal, não estou vendo nenhuma placa por aqui, como é o nome desse lugar? - H...

O que meu filho não vai ter

Meu filho não vai ter um pai que salva vidas como eu tenho. Nem vai ter um pai que conhece mais gente da idade dele do que ele próprio, e periga ser mais amigo dos amigos dele do que ele. O pai do meu filho dificilmente vai ter paciência de levar sanduíches e coca-cola nos intervalos da gravação do CD da bandinha de garagem que ele montar, como o avô dele fez, mesmo não sendo um grande fã de música, especialmente aquela que fazíamos. Tenho certeza que se meu filho chegar bêbado em casa, cinco da madrugada, não vai ser recebido com o café da manhã na mesa, e com certeza apanha se vomitar no meu pé ao invés de receber um sorriso acolhedor como meus irmãos e eu recebíamos. Meu filho não vai ter um pai que acerta a colocação dele no vestibular, antes de qualquer resultado oficial, fazendo cálculos e mais cálculos estatísticos que ainda nem inventaram. Meu filho não vai ter um pai cujo maior prazer da vida é trancar a casa com todos dentro no final do dia, para sentir que a família ainda ...

Walda

Walda era moça doce à primeira vista, mas que com o tempo, quando se conhecia melhor, era ardida e grudenta. Pobre do homem que cedia aos seus encantos sem maiores cuidados. Foi o caso de Júlio, que começou a namorar Walda em Agosto e a largou em Setembro. O caso se deu da seguinte maneira. Se encontraram numa destas casas de shows, onde tocava uma banda de pagode iniciante, com nome engraçado e talento duvidoso. Júlio, como sempre, estava encostado no balcão, fazendo calo no cotovelo enquanto tomava seu quinto gim com soda. Walda dançava com as amigas, escondida na fumaça de gelo seco que saia do palco onde a Jeito Malaco - acho que era esse o nome infame - tocava sua quinta música, que parecia muito com a primeira, a segunda, e todas as outras. Walda era linda e estava bem vestida, um mulherão que Júlio não podia nem sonhar em ter. Mas quem disse que a lógica interfere no mundo dos sonhos. Júlio olhava para Walda como um cachorro olha para o frango que gira na padaria. E Walda girava...

Veranico de Maio

Para os que adoram o verão, existe uma última esperança antes do inverno chegar, o famoso veranico de maio. Poucos dias de sol e calor no final do mês, que fazem lembrar o verão que semanas antes chegara ao seu final. Apesar das condições climáticas quase idênticas, estes dias podem ser verdadeiramente incômodos para alguns, principalmente os mais nostálgicos, pois só fazem lembrar como estava bom o verão, e que aquela ilusão logo acabaria e o inverno em breve chega, forte e incontestável. Ontem, no meio dos meus 33 anos de idade, apareceu uma espinha no meio da minha cara. A reação normal seria tratá-la imediatamente para evitar ser confundido com um chokito envelhecido, mas fiz exatamente o contrário. Tenho cuidado dela com o maior carinho, fazendo o possível para que ela dure o máximo possível. É meu último suspiro de juventude. É minha espinhica dos 33, anunciando o fim da adolescência, algum tempo depois de ela já ter acabado. Ela está para a adolescência assim como o verani...

Feiosa

Enxergo grandeza onde não existe. Acredito na importância do que não é. Exagero nas reações . Sou assim desde pequeno, notadamente no campo turístico. Quando tinha uns 8 ou 9 anos, fui com meus pais e irmãos para Foz do Iguaçu . Além de conhecer as cataratas, tínhamos a intenção de fazer algumas compras no Paraguai, que naquela época de economia fechada era ainda mais atraente. Era minha primeira viagem “internacional” e eu estava emocionado. A viagem durara horas e ainda estávamos em Cascavel, cidade do interior do Paraná que fica a mais ou menos uma hora de Foz do Iguaçu , fronteira com Ciudad del Este. Meu pai ligou o rádio e sintonizou uma estação paraguaia. Segundo relato dos meus pais, quando a música que tocava terminou e o locutor começou a falar em castelhano, eu chorava de emoção e gritava “ Assunción , Assunción ”. Anos mais tarde, na minha primeira viagem internacional de verdade, fui para um congresso na França. Depois de uma semana passeando em Nice, onde teoricame...

Elliot

Meu pequeno cão tem nome, olho e latido de roqueiro. Atende por Ozzy,tem uma máscara preta tipo as do pessoal do Kiss e grita feito o Iggy Pop. Mas foi de outra celebridade que lembrei quando comecei a tossir. Com menos drama e fantasia do que no filme que fez de Steven Spielberg quem ele é hoje, o Ozzy é meu E.T. Sempre morei em apartamento, nunca gostei de pescar, caçar, subir em árvore, andar a cavalo ou de qualquer outra atividade campestre. Nunca tive qualquer tipo de bicho de estimação, e achava que tratar cachorro como gente era o fim da picada. Bom, tudo isso até que meu pequeno E.T. aparecesse. Confesso envergonhado que vejo ele fazer coisas dignas de uma pessoa com bom nível de inteligência, converso com ele como conversaria com meu melhor amigo e me emociono com qualquer latido diferente. Outro dia me peguei tentando ensiná-lo a cantar como Mademoseille Nobs, a cachorrinha blueseira do vídeo do Pink Floyd. Se ela pode, por que meu Ozzão não poderia? Ainda bebezão, com a cheg...