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Home, home again!

Por muitos anos achei que ver o Pink Floyd sem o Roger Waters, ou o Roger Waters sem o Pink Floyd seria uma perda de tempo. Perda de tempo é ser tapado como uma mula, como eu fui na primeira vez que ele veio ao Brasil. Um fã do Floyd como eu não pode se dar ao luxo de desdenhar das migalhas que a lendária banda eventualmente deixa cair aqui no hemisfério sul. O que eu estava esperando, uma reunião improvável da banda, com apresentação no Brasil? Tenha dó! Em 2002, quando o velho Waters se apresentou pela primeira vez por aqui, fiz cara de quem não estava nem aí e perdi o show. Desta vez não! Com organização impecável, o show no estádio do Morumbi começou pontualmente às nove horas da noite. O céu completamente estrelado e a lua crescente anunciavam a grande atração da noite, a execução completa do clássico álbum Dark Side of the Moon, de 73. Minha querida estava comigo, o que tornou o momento ainda mais especial. Ela nunca deu a mínima para as músicas do Pink Floyd e do Roger Waters, e...

Os primeiros ares de abril *

Ah Deus, eles chegaram! Os primeiros ares de abril O sol latejante, o vento já frio Que efeito eles têm Os primeiros ares de abril Não parece tristeza, não parece verdade Os prédios crescem sobre a cidade Fico oprimido, fico vazio quando eles chegam Os primeiros ares de abril * tradução livre do original em inglês

O Impostor

Minha família é um resumo bem humorado do mundo das artes. Tenho tio escultor, pintor, chef de cousine, arquiteto e comediante. Alguns profissionais, outros amadores, mas todos com grandes feitos. Tio Joaquim, por exemplo, um puta artista plástico. Nunca vou esquecer a pilha de latas de cerveja que ele fez no verão de 87 em Camboriú. Entrou para a história com seus 27 andares de “Antarcticas” de ferro tentando se equilibrar debaixo daquele sol absurdo de janeiro. Na época em que só janeiro tinha sóis absurdos. Tem também a tia Amélia, grande arquiteta. Aprontamos várias juntos, pois ela tem quase a minha idade, ou eu tenho quase a idade dela, já que ela chegou primeiro. Já fugimos de casa, já roubamos o carro de meu pai para passear, já fizemos de tudo. Era sempre ela quem arquitetava. Ah que saudades da tia Amélia, aquilo é que era arquiteta de verdade. E a lista só vai crescendo. Tio Jonas, com sua original imitação de Silvio Santos, um rei das artes cênicas. Tia Juliana e sua famosa...

Bob e Woody

Refletir com profundidade requer ficar com dúvidas por mais tempo do que a maioria das pessoas pode suportar. Talvez por ser uma dessas pessoas de pavio cerebral curto ou talvez por ter nascido tarde demais, alguns ídolos da crítica cultural mundial nunca me convenceram. Não consigo entender, por exemplo, onde está a genialidade de Woody Allen. Fazer sempre o mesmo papel de nova-iorquino neurótico não é necessariamente um grande feito. Mesmo porque, faz muito tempo que ser neurótico deixou de ser exclusividade de nova-iorquinos. Também não entendo que, em pleno ano de dois mil e seis, o disco novo do Bob Dylan tenha recebido da crítica vários prêmios como um dos melhores do ano. Acho que eu perdi alguma coisa. Não estou dizendo que Dylan não tem seu valor. Quem sou eu! Mas já deu, né? O disco é chato, aquela voz fanhosa já perdeu o charme faz tempo, e o tempo agora é de gente nova. Deixa o Bob fazendo seus discos para os fãs do Bob, mas não precisa confundir a cabeça da criançada que a...

Todo mundo escutou

Depois do ding-dong, surge a voz metálica nos alto-falantes do aeroporto: - A infraero informa! Senhores passageiros com qualquer destino: - Os vôos estão atrasados, você já viu na TV, então não reclame! - Colocaremos toda a culpa nas companhias aéreas, mas não acharão ninguém das mesmas por perto. - Como medida de contenção, a cada seis horas de atraso mandaremos um representante magrinho e sem nenhuma informação ao seu portão de embarque. Pode bater para descarregar a raiva. - Informamos também que em breve todas as lanchonetes serão fechadas, e todos ficarão sem água. - Adicionalmente informamos que os banheiros estão imundos e o pessoal da limpeza já se mandou. Segura mais um pouquinho e deixa para fazer no avião. Quem avisa amigo é. - A mãe não! Não mete a mãe no meio! A mesma voz metálica, poucos segundos depois, em algum idioma parecido com o inglês, aqui corrigido para melhor entendimento: - Dear passengers: - Please come back home. What the f… are you doing here anyways. This ...

Repetrospectiva

Tenho uma amiga, que depois de levar algumas rasteiras da vida, está com vontade de tatuar uma pulga atrás da orelha. Não duvido que ela o faça, e que vire moda. Afinal, como não ter uma pulga atrás da orelha depois de um ano como 2006. Não sou dado a retrospectivas, afinal, o que passou, passou. O problema de 2006 é que o que passou, não passou, continua passando. Nosso querido presidente falando bobagens relacionadas ao futebol, que supostamente têm algo haver com a situação do país, mas que ninguém entende. Mais um corte insignificante na taxa básica de juros. Mais um "pequeno" roubo impune. Mais um atentado em algum lugar do oriente médio, com uma série de mortes e mães chorando. Mais um grau na temperatura média da terra. Mais uma empresa abrindo as portas na China. Mais um grupo de funk carioca feito nos Estados Unidos. Desde quando o mundo ficou monótono? O único evento que quebrou a monotonia do ano no Brasil foi a crise aérea que se estabeleceu desde outubro, quando ...

Avião - parte III - A última

Sempre fui apaixonado por trilogias no cinema. Desde Indiana Jones, passando por De Volta para o Futuro e Guerra nas Estrelas, até chegar na famosa trilogia de Kieslowski. Sempre achei que um filme de duas horas é muito pouco para contar boas histórias. Minha maior decepção foi quando lançaram O Massacre da Serra Elétrica IV, e depois o V e assim por diante. Se soubesse que não seria uma trilogia, mas sim uma duziologia, não teria nem começado. De qualquer forma, foi esta paixão que me levou a escrever este terceiro (e último, prometo) texto sobre aviões. Na verdade, na última vez que falei sobre isto estava maravilhado com minha repentina cura ao pânico de voar. Faltava só a prova final. Vôos longos sobre o oceano. E não é que passei no teste? Fui e voltei de Londres sem sentir nenhum tipo de medo, e olha só, na volta, antes de decolar, o piloto anunciou um pequeno problema técnico, e que tinha uma equipe de engenheiros vindo arrumar a aeronave. Que tipo de pequeno problema técnico pr...