Pular para o conteúdo principal

Masbaha

Contava cada uma das 33 pedras do seu masbaha favorito pela décima vez para esquecer o que tinha acabado de passar. Não era religioso, muito menos muçulmano. Conhecia apenas um dos 99 nomes de Allah, justamente este, e usava o masbaha apenas para aliviar as tensões do dia-a-dia e esquecer-se dos problemas, que àqueles tempos eram muitos.

Sua esposa, que o observava pela fresta da porta entreaberta do escritório, também tinha seus próprios problemas, mas o maior de todos é o que tinham em comum. Há tempos não podiam suportar a companhia do outro. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.

Não tinham filhos e estavam juntos a tempo suficiente para se esquecerem do tempo em que estavam juntos. Eram como inimigos de guerra presos na mesma cela, que tiveram que aprender a se respeitar, pois a outra opção era fatal.

Ele passou mais umas duas horas apertando as pedras de Allah antes de ir para a cama. Entrou o mais quieto possível debaixo das cobertas, para evitar mais uma discussão inútil, e dormiu.

De manhã ela fez o mesmo, só que no caminho inverso. Saiu a mais quieta possível debaixo das cobertas, e foi trabalhar. Era a única coisa com a qual realmente se importava, atender os clientes de sua agência de turismo, que havia um bom tempo era a única fonte de renda do casal. De tempos em tempos partia como guia para uma viagem com algum grupo de turistas idosos. Foi numa dessas viagens, daquela vez para Damasco, que comprou o masbaha que seu marido tanto gostava de contar, enquanto esperava a próxima viagem dela para ser feliz.

Quando ela chegou em casa no final do dia o procurou para anunciar seu próximo destino. Desta vez iria sozinha. Ele estremeceu.

Comentários

Acras disse…
porra que texto bom! muito bom!
AMEI o texto, especialmente o final.
rafacras disse…
Muito bom!

Postagens mais visitadas deste blog

Triathlon de Noel

Natal de 2010. Na verdade antevéspera de Natal, dia 23 de Dezembro. Faz 5 minutos que saí de uma reunião com um fornecedor crítico, que está quase parando a linha de produção de um de nossos clientes. Em mais 25 minutos entro em outra, com outro fornecedor crítico, que está quase parando a linha de produção de outro de nossos clientes. 2010 foi assim, basicamente uma corrida só, em três modalidades. Modalidade número 1, a já mencionada corrida atrás de peças para nossos clientes. Modalidade número 2, a emocionante corrida atrás do desenvolvimento pessoal. Já contei em outras ocasiões que todos os anos eu me isolo, por dois ou três dias, para fazer uma reflexão do ano que passou, das evoluções conquistadas e do que está por vir. Depois tenho o ano todo para dar os próximos passos. De fato dei muitos passos esse ano, mas sempre correndo contra o relógio. Clichê verdadeiro esse, como todos os clichês. E finalmente a melhor de todas. A modalidade número 3, corrida com revezamentos e ...

Maturidade

- Eu até esperava os cabelos brancos e a barriguinha, mas a maturidade e a serenidade que os acompanham não estavam nos planos. Droga! - Mas é legal isso! Não é porque é maduro que precisa ser chato né? - Sei lá, estão aparecendo algumas manias que eu não estou gostando. - Se você não está gostando ... - Tá bom palhaço, estou falando sério aqui. Crise da meia idade porra! - Desculpe, é que não me sinto assim. Dá para ser maduro e sereno, sem deixar de ser cool . Tipo um Elvis Costello tocando com os Beastie Boys no SNL. - Bom argumento. - Sem contar que a gente fica mais charmosão, as meninas olham mais. - Sim, olham com dó, e um pouco de medo. - (risos) Fale por você! Comigo é só dó. - (risos) - Faz o seguinte, pega a Marta e as crianças e cheguem lá em casa hoje à noite. Fazemos um churras e enchemos a cara. - Beleza, mas vê se compra carne naquele açougue que eu te mostrei da última vez. E nada de Heineken, vou levar só Stella. ...

Bad Religion in Curitiba - 1996

Those were the early days of internet, especially in Brazil. Luckily, I was an engineer student in a Federal University in Curitiba. Internet in Brazil was a privilege of some universities (mine included), so I had access to the web. And I had e-mail. It was the early days of 1996 and I was working as a student researcher in the AI lab of my college. It was boring, and I loved rock´n´roll, as all smart and bored kids did. Since 1993, after a disastrous attempt to play an RPG game at a friend´s house, I met the band that would change my life forever, Bad Religion (@badreligionband). How I met the band is a long and different story, but since then I became a huge fan and started a punk rock band thanks to them. Well, back to the lab and the e-mail access, after long hours of research, and thanks to the naivety reigning on the early days of the web, I managed to find out the e-mail of Bad Religion´s manager at the time, Michele Ceazan (@monsqueeze). So I wrote her. I can...