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O Ministro do Planejamento

Conheço um homem que foi apelidado pelo sogro de ministro do planejamento. O apelido só é injusto pelo fato de ele não ter a menor inclinação para as atividades políticas; além das da boa vizinhança. Quanto ao fato de ter um dom sobrenatural para planejar atividades, o apelido chegar até a ser muito brando. O homem é bom! Não faltam histórias para provar e nem familiares para constatar. Outro dia estava escutando ele conversar sobre a festa de reveillon com seu filho mais novo. Não lembro bem o dia, mas era início de outubro. - Filho, vamos para a praia passar o ano novo? Após uma feição que refletia total estranheza com relação à pergunta, o jovem entendeu e entrou na onda. - Mas pai, não está meio cedo? - Como cedo, já estamos em outubro! Esses hotéis de praia lotam com uma velocidade que você não acredita. Ainda mais aquele quarto que eu gosto no térreo, de frente para a praia. Posso reservar um quarto para você? - Não sei ainda, deixe chegar mais perto. - Mas é só uma idéia, sem co...

Novos Conhecidos

- Olá! - Oi, eu te conheço? - Não sei, por que pergunta? - Porque você disse olá. - É eu disse, então devo te conhecer, e você, me conhece? - Acho que não, por que deveria? - Porque você disse oi, que até onde eu sei é sinonimo de olá, e usando a sua lógica ... - Já entendi. - E seu nome? - Você sabe meu nome, afinal, já nos conhecemos. - É verdade. Aliás, você está mais linda do que nunca. - Obrigada! - Escuta, porque não saimos tomar um café qualquer dia destes? - Acho que não teria problema algum, você me liga? - Já entendi, como já nos conhecemos, eu já sei o seu telefone, certo? - É você tem razão. - Então tá. - Mas sabe o que, troquei de celular, você quer o número novo?

Eu mando na chuva

Eu admito, a culpa é toda minha! A cidade está nesta seca há um bom tempo, e eu sou o causador. Você duvida? É verdade, juro! O céu está limpo, o inverno está quente, o racionamento de água começou, e se você quiser alguém para apedrejar, aqui estou. Quando era pequeno, ouvia dos meus pais que eu havia nascido para grandes feitos. Sempre achei bobagem, coisa de mãe coruja, de pai orgulhoso, mas agora está provado, eu nasci para determinar quando vai chover e quando o tempo vai abrir. Eu tenho este poder, e não adianta ficar com inveja, não tem nada de bom nisto. Na verdade é muito mais uma maldição do que uma benção. Ao longo da história muitos milagres foram atribuídos a pessoas comuns, que depois foram santificadas, ou queimadas em fogueiras. Sinceramente espero não ter nenhum destes dois destinos extremos, mesmo porque não opero nenhum milagre, o que faço é cientifico, você já vai saber. Hoje, depois de mais de quatro meses de uma seca de deixar um Tuareg com sede, choveu! E não foi...

Fã Clube

Estou longe de ser um bom escritor, quanto mais um profissional, mas já tenho fã clube. Desde que resolvi publicar minhas crônicas em um blog, angariei uma multidão de três leitores sedentos por novidades. Minha esposa, minha sogra e meu irmão mais novo. Um deles até me ligou reclamando que há mais de quinze dias não escrevo nada. Parece que existe uma regra tácita no mundo virtual de que blog sem atualização, no mínimo quinzenal, deixa de ser lido. Ai não, vou perder minha legião de fãs! Preciso escrever mais. Isto me lembra de quando decidi me aventurar no mundo das letras. No começo, achava que escrever bem era aprender a usar a crase e as vírgulas. Comprei até o “Manual de Redação e Estilo” do Estadão. Mas como na prática a teoria é outra, não adiantou nada, e continuei sem saber escrever. Depois achei que o ideal era ter um projeto maior, com objetivos que me obrigassem a praticar e me aprimorar. Decidi escrever um livro. Escolhi o tema, os personagens, quem eu iria entrevistar pa...

O rei do networking

Sempre quis fazer uma homenagem a um homem que foi parte muito importante da minha vida, o tio Carlos. Eu poderia fazer um texto sobre as qualidades dele como engenheiro, ou professor, ou qualquer outra coisa, mas não seria verdadeira. Apesar de ter sido meu primeiro “patrão”, quando eu ainda estudava engenharia, não sei dizer quais eram suas qualidades profissionais. O que sei dizer, e esta é minha homenagem, é que o tio Carlos era o rei do networking. Nunca na minha vida toda fui dar uma volta com o tio Carlos sem que ele cumprimentasse pelo menos umas três pessoas diferentes. E não pense que ele cumprimentava sem conhecer. E não pense que ele conhecia superficialmente. Ele sempre sabia o nome e pelo menos uma característica única da pessoa. Um diálogo típico seria: - Oi doutor! – ele chamava todo mundo de doutor – Tudo bem? - Tudo seu Carlos, e o senhor? - Graças a Deus! E daí, já vendeu o Landau dourado? Era sempre assim. Ele parecia realmente se importar com a...

Avião - parte II

Não sei o que aconteceu. Não sou mais o mesmo. Não tenho mais medo de avião. Ainda não fiz viagens muito longas para comprovar, mas pelo que tenho visto (e sentido), o medo se foi. Se a vida fica bem mais fácil, fico com um assunto a menos para chocar os bravos e destemidos. Todos os outros elementos da viagem estão lá, desde a saudades até a conta do hotel, mas o medo de avião já era. Estou agora mesmo escutando Pink Floyd no ipod (você conhece mais alguém que compra ipod para escutar Pink Floyd?), escrevendo este texto na cama do hotel, e não estou nem pensando no vôo da volta. E olhe que hoje é Domingo e o vôo é já na sexta-feira. O que aconteceu comigo? Peguei até turbulência e arremetida do avião um segundo antes do pouso; nada. Acho que as coisas estão funcionando (outro dia eu conto quais coisas). Não que isto tenha muita importância para alguém, só queria registrar o fato. Afinal, se quase não invento nada do que escrevo, quase dá para acreditar que tudo o que escrevi agora é v...

Acordei depois de uma noite sem dormir

Acordei depois de uma noite sem dormir, pronto para reclamar da vida. Não deu certo, o dia estava muito bonito e a noite, apesar da insônia, tinha sido tranquila. Fui andar com meus pais e o cachorro, ou com o cachorro e meus pais, se considerar quem definiu a rota e o ritmo. Numa esquina, quando passamos perto de umas crianças que brincavam na rua, o cachorro puxou minha mãe para a direita, fez ela atravessar a rua e, quando vimos, ela já tinha tomado outro caminho. Ela olhou para trás e viu que já estava muito longe, resolveu continuar. Eu esbocei uma corrida para alcança-la, mas meu pai me segurou. Nos encontrariamos mais tarde. Andei longe com meu pai. Longe até demais para a minha idade, e principalmente para a dele. Resolvemos voltar e no meio do caminho peguei um atalho mais difícil. Eu não queria mais perder tempo. Não sei se meu pai encontrou minha mãe no caminho ou não. Não perguntei quando nos encontramos na semana seguinte. Depois deste dia, nunca mais andamos juntos. Cada ...