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Vôo solo

Somente depois de várias horas conseguiu relaxar completamente. Não era a primeira vez em Paris, mas desta vez as coisas seriam diferentes. Sabia que tinha que fazer o check-in no hotel e sair correndo. Não havia muito tempo para descansar, e nem queria, tinha que resolver a situação de uma vez por todas. Esperara sete anos por esta oportunidade. Pegou o mapa do metrô na recepção do hotel e viu que era exatamente o mesmo mapa de sete anos atrás. Desenhou mentalmente a rota e saiu correndo. Estava sujo, sem dormir e com a dor de cabeça que sempre tinha quando bebia no avião, não importava, sua missão era mais importante. Subiu correndo as escadas da estação Cambronne, desceu na Trocadero, correu para pegar o segundo trem, passou vergonha quando teve que pular para dentro enquanto a porta fechava. Fez cara de turista bobo para não deixar dúvidas e sentou no banquinho retrátil da porta traseira do vagão. Esta segunda perna da viagem era bem mais longa, com umas oito ou nove estações...

Passeio

Saíram os três para um passeio vespertino à beira-mar. Se conheciam desde pequenos e tinham uma amizade daquelas que duram todo o verão. Foram longe conversando sobre os planos para o novo ano. Que cursos fariam, que amores esqueceriam e quanto dinheiro deixariam de guardar com as bebedeiras, as viagens e outras atividades de igual importância. Já iam longe e tinham resolvido quase todos os problemas do ano que começava quando Marcelo, o mais velho, falou de como sentia-se bem na companhia dos outros dois e levou uma vaia. Era permitido sentir-se bem, mas não precisava falar sobre isso, era óbvio e estragava o momento. Marcelo sempre falava demais. Rose era a mais nova, e a única mulher. Marcelo e Carlos cuidavam dela como irmã, coisa que ela adorava, quase sempre. Era geniosa e de longe a mais inteligente dos três. Também a mais boêmia e promíscua, para desespero dos outros dois. Ficava com um cara diferente a cada noite, não antes de judiar bastante do pobre coitado e, é claro, de Ma...

Chuveiros

É difícil sair da sala sem acordar o cachorro. Ele fica com a cabeça no chão, cobertorzinho na boca, fingindo acompanhar meu sono, mas ao menor movimento, levanta e quer brincar. Agora penso naquela história de que cachorro se apega aos donos e não à casa. Pelo menos neste quesito ninguém pode me chamar de cachorro. Desde pequeno tenho a característica de me apegar exageradamente aos locais onde resido. Depois de morar os primeiros nove anos da minha vida em um apartamento com meus pais e irmãos, os velhos resolveram que o lugar estava pequeno. Era um apartamento no décimo andar de um edifício que leva o nome da minha avó, e não por coincidência. O terreno era de meu avô, e o nome do edifício, as lojas do andar térreo e mais três apartamentos foram o preço que meu avô cobrou dos construtores. Um dos apartamentos ficou para meus pais. Meses antes de mudarmos para o novo apartamento, que ainda estava em construção, os novos donos do nosso exigiam a entrega. Um de meus tios tinha ficado c...

Volta antecipada

Pois é, voltei! Não deu para ficar tanto tempo longe quanto eu planejava, mesmo por que a pinta das costas era só uma sujeira antiga que encracou. Uma esponja nova resolveu o assunto. Já me acostumei com o travesseiro novo e as meias já estão acostumadas com os meus pés. Além do mais, sei que vocês não aguentam mais de saudades das minhas bobagens. Espero que os três tenham se comportado. O que? Só dois? Como assim desistiu? Bom, falando em mudanças, tenho um texto sobre chuveiros. Abraço a todos.

Já volto ...

Amigos leitores, devido a uma série de mudanças radicais em minha vida (travesseiro novo, mudança no enxoval de meias e uma pinta nova que apareceu aqui atrás do ombro) vou dar um tempo nos meus escritos. Prometo que volto logo, daqui a umas quatro ou cinco semanas. Enquanto isso eu sugiro algumas coisas, como largar o mouse e sair para ver o sol, comer um sanduíche de pernil da mineira, falar mal do Lula ou até mesmo ler outras coisas mais interessantes. Mas não esqueçam de mim, pois espero sinceramente encontrá-los por aqui quando voltar. Todos os três, por favor! Abraços

Crochê e Dominó

Doutor Bragança acordou cedo naquele dia. Tinha desses nomes Imperiais afetados, mas era pessoa simples e de boa lida. Era simples até para acordar. Sem estardalhaço rolava para o lado da cama, calçava seus chinelos de couro velho e ia fazer o primeiro xixi do dia. Fazia muitos, coisa da idade que andava beirando os oitenta. Conheceu Dona Genalva quando já não tinham mais os dentes próprios, no banco da praça. Ele jogava dominó na mesinha com seu companheiro de todos os dias, o Seu Armindo, enquanto ela mexia agitada as agulhinhas de crochê. Fazia muito tempo que estavam de flerte, parece que uns três ou quatro dias (muito tempo nessa idade é contado em dias), quando o distinto Doutor Brangança finalmente tomou coragem, caminhou lentamente até o banco onde estava a Dona Genalva, pediu licença para sentar-se a seu lado e iniciou um longo papo, que durou mais de ano. Casaram-se logo, pois não tinham tempo a perder. Iam todos os dias à praça e, quando ele cansava de jogar, gritava para ...

Canecas

Em casa, Marco e Lili não têm condições de receber mais do que meia dúzia de pessoas para um jantar, faltam talheres, pratos e, principalmente, lugares à mesa. Entretanto, se um número absurdamente grande de amigos e parentes resolverem aparecer ao mesmo tempo para tomar um boa caneca de café, as têm para todos. Já improvisaram um pendurador de metal para elas, mas tanto este quanto os armários continuam enchendo. Eles têm de todos os tipos, a saber, das de viagens, das com mensagens de amor, das engraçadinhas, das de propaganda; têm até uma na qual se pode escrever recadinhos com uma caneta especial. Elas não param de chegar, é como se fossem programadas para acabar na casa do casal. Marco às vezes desconfia que no silêncio da noite, com insônia causada pela cafeína, elas se reproduzam. Safadas estas canecas. Marco e Lili têm problemas também quando alguém viaja. Como já criaram a fama de colecionadores, a cada vez que um conhecido escapa de férias ou a trabalho, uma ou mais os são da...