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Tony


Meus filhos, e todas as crianças que conheci até hoje, adoram brincar de esconde-esconde. Eu me divirto demais quando eles são bem pequenos ainda, e não têm um pingo de malandragem. Escondem-se nos lugares mais óbvios, e acreditam do fundo do coração, como se fossem invisíveis, que ninguém os está vendo. E ainda ficam dando aquela risadinha, bem baixinha, como se estivessem fazendo todos de trouxas.

É assim que eu sempre ouvi as músicas do No User for a Name, banda de hardcore melódico do gênio, Tony Sly. O primeiro disco dos caras que eu conheci foi o clássico “Leche com Carne”, gravado para mim em fita K7 por um dos irmãos da cena harcore curitibana. Pouco tempo depois, em uma viagem à França com minha querida mãe, comprei o “Making Friends”, que havia sido lançado naquela semana, para mim o melhor disco de HC da história e provavelmente o CD que eu mais escutei até hoje. Só no discman que levei naquela viagem, devo ter escutado umas 30 vezes em uma semana.

E que porra uma banda de HC melódico e seu líder têm que ver com as crianças brincado? Muito. A grande habilidade de Tony Sly, o que o tornou um dos caras mais admirados desse mundo irregular de bandas de HC, é sua capacidade de criar melodias lindas, colocar em cima delas letras de uma sensibilidade fora do comum, e escondê-las por detrás de uma pancadaria sonora capaz de fazer quaisquer pais de adolescentes que escutam NUFAN desconfiarem que seus filhos estão andando em má companhia. É isso que Tony fez a vida toda, escondeu mal suas brilhantes melodias e ainda ficou rindo baixinho, achando que não tínhamos percebido.

Tempos depois, e já tendo lançado vários álbuns ótimos do NUFAN, Tony decidiu parar de brincar de esconde-esconde. Terminou sua banda e resolveu expor sua melodia e sua dor da maneira mais limpa, transparente e escancarada possível. Desacelerou o compasso, tirou as guitarras velozes e distorcidas, trouxe o violão e o piano e fez dois discos acústicos de arrepiar.

Para mim a boa arte vem do sofrimento. Quem vive tranquilo, não sentiu grandes dores, não ama uma mulher que não corresponde este amor, não esteve à beira de mandar tudo às favas, vai ter dificuldades na vida de artista. Músico, poeta, pintor, todos os bons sofreram, e muito.

Nos álbuns do NUFAN você sente que Tony tem essa “bagagem” maldita, mas ele não entrega o jogo 100%. É nesses dois acústicos que você entende porque ele terminou com a própria vida tão cedo. Porque ele sofria. Ele amava suas duas filhas e a mãe delas com a intensidade típica dos poetas, e tinha que viver longe delas, muito porque sua ex não podia mais com ele. No melhor dos dois discos, Sad Bear, tudo gira em torno disso. Um dia, voltando tarde do trabalho para casa, coloquei Sad Bear para tocar. Ao chegar toquei a campainha e quando meus dois pequenos abriram a porta, agarrei eles e a minha querida com tanta força que eles estão até hoje tentando entender o que houve.

São muitos os momentos sublimes destas duas obras fantásticas, mas só para dar uma ideia, em uma passagem escrita para sua amada ele declara:

“On this winter day I hear the wind call out your name
And it sounded like the scream of summers past
This is therapy for me a mission that my heart is on
I love you plain and simple but it´s sad
That all we want is what we had”

Em outro momento inspirado, aparentemente depois de várias tentativas frustradas de se tornar o que sua mulher precisava que ele fosse, em desespero ele desiste:

“Maybe I cannot change me ´cause I am me”

A frase mais simples, poderosa e desesperada que já ouvi.

Por coisas como estas é que Tony Sly deixou uma legião de fãs e admiradores. Pouco depois dele partir, seu amigo e parceiro de dois outros álbuns acústicos, Joey Cape, juntou uma miríade de artistas do calibre de NOFX, Bad Religion, Rise Agains, entre vários outros, para gravar um disco tributo a Tony, com mais de 30 canções das suas fases HC e acústica. É comovente e ao mesmo tempo atordoante escutar esse disco.


Tony Sly era uma criança no corpo de um bruta montes. Era mais feliz quando brincava de se esconder. Quando amadureceu, sentiu uma dor insuportável, criou suas obras primas e foi embora.

Comentários

Anônimo disse…
Cara, parabéns, que belo texto.
Unknown disse…
Estou lendo seu livro Rodrigo ! Gostando bastante ! Grande abraço Gabriel Cardoso