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Apagadão

Duarte passava boa parte do tempo apagado. Apagadão mesmo, quase em coma. Decidia beber, enchia a cara e apagava por dois ou três dias. O curioso é que durante o blackout, Duarte sempre tinha uma epifania. Uma idéia genial, transformadora. Era tão famoso por este dom, que já estava na fase de receber encomendas. Dependendo da bebida, podia direcionar seu trabalho para um assunto específico. Uísque, idéias de negócios para empresas familiares. Vinho tinto, idéias de negócios internacionais. Espumante, idéias proibidas. Cerveja, idéias para samba enredo. Martini, idéias conspiratórias ou de espionagem. E assim a coisa acontecia.

Duarte andava com a agenda cheia. Alem de não pagar mais pelo vício, ganhava um bom dinheiro para ajudar as pessoas no que quer que fosse, quase morrendo a cada vez.

Teve uma vez que um figurão pagou duas caixas de keep cooler para que Duarte desse uma idéia de como comprovar que a esposa dele estava se encontrando com o suposto amante em um motel da cidade. Bebida fraca, idéia fraca. Duarte mandou o figurão seguir a mulher. Funcionou.

Outra vez, bebeu uísque 18 anos para ajudar um irmão a dar o golpe nos outros e assumir sozinho a empresa da família. Os irmãos traídos só não mandaram apagar o Duarte porque seria um desperdício de dinheiro. Ele vivia apagado.

Numa de suas últimas atuações, uma moça pediu para Durte uma idéia do que fazer da vida. Quando ele acordou, saiu, comprou um lindo anel de diamantes, e pediu a moça em casamento. Como já tinha dinheiro o suficiente, parou com seu curioso ofício. Vivem muito bem, mas até hoje Duarte não tem nem idéia de que bebida era aquela.

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