Pular para o conteúdo principal

Até que a morte ...

Fui bom enquanto durei. Mais oito páginas e eu acabaria o livro que estava lendo, mas não deu tempo.

Ela é muito diferente de como a descrevem por aí. Parece muito com um taxista gordo e tagarela que vai te conduzir através da cidade. Só que desta vez não era através da cidade. Como fiquei com medo de que meu enjôo de andar no banco de trás tivesse passado comigo desta para melhor (ou de pior para esta, sei lá como é que falam por aqui), sentei no banco da frente, ao lado da motorista. Sempre gostei de um bom papo com motoristas de táxi gordos e tagarelas, coisa que deixava minha esposa perplexa. E de saco cheio. Desta vez não foi diferente. E, acredite, a morte tem muita história para contar. Escutei pacientemente cada uma delas, fazendo todos os sons que indicassem interesse e compreensão. E as histórias duraram uma eternidade – sem gozação. Fiquei na dúvida se estava a caminho do inferno ou se já tinha chegado. Comecei a pensar se era possível morrer duas vezes. Se fosse me jogaria pela janela, ali mesmo, nem que ainda estivéssemos pelas redondezas do purgatório. Aguentei firme.

Quando já havia perdido minhas esperanças de ter um minuto de sossego da falação de meu algoz desembestado, ela me olhou, com aqueles olhos esbugalhados, e perguntou sobre o livro que eu estava lendo antes dela me pegar para dar uma volta. Uma lufada de esperança me atingiu em cheio e comecei a contar. O tempo sempre voa quando você está contando algo. Aparentemente não para o taxista gordo e tagarela, nossa infame motorista. Quem diria, eu nem tinha acabado de explicar o primeiro capítulo e ela já estava procurando um retorno. No meio do segundo, já estava chegando na terra. Antes de começar um relato detalhado do terceiro capítulo, ela estava me largando em casa. Como toda tagarela, não tinha nenhuma paciência para escutar. Eu que lesse as últimas oito páginas e esperasse para morrer no turno de outra. Antipática.

Comentários

Acras disse…
Excelente.
Bem criativo..adorei!
Maria Ercília disse…
Adorei!

Postagens mais visitadas deste blog

Despertadores

Eu não sou exatamente um cara místico, que acredita muito em que tudo acontece por um motivo e tal. Ou pelo menos não era até ter meu filho e começar a me aproximar da meia idade. Agora, de verdade, meu velho ter perdido a hora no meu primeiro dia de aula em um novo colégio sempre fez meu ceticismo cair de joelhos, por assim dizer. Explico. Meu velho nunca perde a hora. Pelo contrário, a hora é que perde ele. Sempre agitado, ligadão, a mil por hora, quais eram as chances dele dormir demais no primeiro dia de aula de dois dos seus três filhos no colégio novo? Bom, alguma chance deveria ter, pois foi o que aconteceu. E esse pequeno deslize foi o que salvou a minha vida, sem exageros. Como cheguei atrasado, as carteiras próximas aos meus colegas do antigo colégio já estavam todas tomadas. Sobrou um lugar do outro lado da sala de aula, bem no meio de três figuras lendárias da cidade. Para um piá de prédio, patologicamente tímido, vindo de um colégio de filhinhos de papai, sentar no meio ...

Bad Religion in Curitiba - 1996

Those were the early days of internet, especially in Brazil. Luckily, I was an engineer student in a Federal University in Curitiba. Internet in Brazil was a privilege of some universities (mine included), so I had access to the web. And I had e-mail. It was the early days of 1996 and I was working as a student researcher in the AI lab of my college. It was boring, and I loved rock´n´roll, as all smart and bored kids did. Since 1993, after a disastrous attempt to play an RPG game at a friend´s house, I met the band that would change my life forever, Bad Religion (@badreligionband). How I met the band is a long and different story, but since then I became a huge fan and started a punk rock band thanks to them. Well, back to the lab and the e-mail access, after long hours of research, and thanks to the naivety reigning on the early days of the web, I managed to find out the e-mail of Bad Religion´s manager at the time, Michele Ceazan (@monsqueeze). So I wrote her. I can...

Maturidade

- Eu até esperava os cabelos brancos e a barriguinha, mas a maturidade e a serenidade que os acompanham não estavam nos planos. Droga! - Mas é legal isso! Não é porque é maduro que precisa ser chato né? - Sei lá, estão aparecendo algumas manias que eu não estou gostando. - Se você não está gostando ... - Tá bom palhaço, estou falando sério aqui. Crise da meia idade porra! - Desculpe, é que não me sinto assim. Dá para ser maduro e sereno, sem deixar de ser cool . Tipo um Elvis Costello tocando com os Beastie Boys no SNL. - Bom argumento. - Sem contar que a gente fica mais charmosão, as meninas olham mais. - Sim, olham com dó, e um pouco de medo. - (risos) Fale por você! Comigo é só dó. - (risos) - Faz o seguinte, pega a Marta e as crianças e cheguem lá em casa hoje à noite. Fazemos um churras e enchemos a cara. - Beleza, mas vê se compra carne naquele açougue que eu te mostrei da última vez. E nada de Heineken, vou levar só Stella. ...