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Todas as minorias

Com o tempo ela aprendeu que a melhor maneira de sentir que passava mais tempo em casa era deixar para arrumar a mala na útima hora. Era exatamente o que estava fazendo quando começou a pensar em sua condição.

Havia passado sua infância e adolescência no Alabama das décadas de 60 e 70. Seu pai era reverendo de uma igreja presbiteriana e sua mãe professora de música. Desde cedo a ensinaram a enfrentar com classe os problemas da discriminação racial, o que não significa que sua vida tenha sido fácil. Não podia andar em determinadas ruas, nem frequentar a maioria dos estabelecimentos comerciais do centro de sua cidade. Apenas as chamadas “colored facilities” podiam ser frequentadas por afro-americanos naquele tempo, e seus pais a proibiam de se rebaixar às normas da época. Cursar um bom colégio, fazer aulas de música e ter acesso à cultura era privilégio de poucos.

Foi tão longe em suas memórias que acabou exagerando na mala. Era uma viagem de ida-e-volta, não precisaria de tanta coisa. Fazia esta viagem pelo menos uma vez por mês, às vezes escondida, mas ainda não conseguira acostumar-se. A visão do sofrimento daquele povo a lembrava de sua infância, sentia a agonia de todas as minorias, mesmo quando, localmente, configuravam maioria. Este sentimento colocava sua história pessoal e suas convicções políticas em conflito, ela ainda não sabia direito como tinha chegado àquele ponto, não era conveniente pensar nisto.

Finalmente estava com a mala arrumada, o avião já estava pronto, a equipe também. Beijou a foto dos pais, tirada pouco antes de sua mãe falecer, ligou para escutar as últimas recomendações do presidente e partiu para a zona de conflito.

Comentários

Anônimo disse…
Por isso que sou sua fã....cada vez mais seus textos e idéias me surpreendem!
Anônimo disse…
Muito bom. Na verdade não caiu a ficha quando li. Por sorte estava ao lado do autor no momento.

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